José Paulo Fafe

Uma história sobre o “biógrafo”…


A PROPÓSITO do livro “Mário Soares, uma vida” que, ou muito me engano,  ainda vai fazer correr muita tinta, não resisto a lembrar uma história (a dois tempos) vivida com o agora “biógrafo” e então jornalista Joaquim Vieira, que ajuda a perceber alguns traços do  seu carácter…

*

Corria, salvo erro, o final da década de 80. Eu trabalhava na Radiogeste e foi ali, nas Amoreiras, que fui procurado por um velho conhecido – o Manolo. Há anos que não o via. Antigo motorista e segurança de Mário Soares até princípios dos anos 80, este corpulento filho de um galego de uma aldeia de Puenteareas e que há muito tinha assentado arraiais no centro da Amadora, queria falar comigo em particular. Sentámo-nos no único gabinete que existia na sede da estação e Manolo foi directo ao assunto que o trazia: andava “enrascado de massas” e há dois ou três dias atrás tinha ido falar com o Rui Mateus a pedir emprego. E então? “Contratou-me para seguir um jornalista que anda a investigar a Emaudio”, revelou-me. Quem? “O Joaquim Vieira, o do ‘Expresso’– tens de ajudar-me!”. Confesso que fiquei sem saber o que dizer, era só o que me faltava agora andar a dar informações sobre alguém que ainda por cima que tinha sido meu colega uns anos antes e, já agora (!), a uma espécie de “espião” ao serviço de um “clã” pelo qual eu não morria propriamente de amores. Chutei mais ou menos para canto, transmiti ao meu amigo Manolo umas “preciosíssimas” informações sobre Joaquim Vieira que mais não eram que meras banalidades tipo “o gajo é de Leiria” ou “antes do 25 de Abril, baldou-se para Paris” – tudo para entretê-lo e tentar perceber até que ponto ia o “cerco”, a mando de Rui Mateus, ao então jornalista do “Expresso”. Despedimo-nos, comigo a prometer-lhe que se soubesse alguma “coisa interessante” lhe diria.
Escusado será dizer que a primeira coisa que fiz quando vi a porta do elevador da Torre 2(?) das Amoreiras fechar-se e levar o Manolo por ali abaixo foi precipitar-me para o telefone e ligar para o Joaquim Vieira e marcar um encontro “no Xenu daqui a meia-hora…” e onde o alertei para tudo o que se estava a passar, contando-lhe timtimportimtim a minha conversa com Manolo e levando-o a tomar as precauções necessárias. Recordo-me tanto do ar extremamente assustado de Vieira, bem como dos insistentes agradecimentos que me fez pelo alerta que lhe tinha levado.
Cinco ou seis anos mais tarde, se não estou enganado em 1995, tive a oportunidade de dirigir e produzir um documentário sobre Cuba. Antes de iniciar as filmagens, estabeleci um compromisso com a RTP, então dirigida pelo Adriano Cerqueira, em que a estação pública teria a prioridade no visionamento do documentário quando este estivesse finalizado e consequentemente a sua opção de compra. Ao regressar de Cuba, alguns meses mais tarde e já com António Guterres no poder, encontrei a RTP com nova direcção – o tempo era agora dos “Joaquins”, o Furtado e o Vieira. Apesar disso, para mim o compromisso de dar prioridade à televisão pública mantinha-se. Obviamente. Liguei para a 5 de Outubro, identifiquei-me junto da secretária que me atendeu, pedi para falar com Joaquim Vieira e ao fim de um ou dois minutos de espera, a senhora em causa voltou à linha: “O sr. Joaquim Vieira manda perguntar qual é o assunto...”. Não quis acreditar: “Desculpe…”. E a funcionária repetiu: “O sr. Joaquim Vieira manda perguntar qual é o assunto…”. Demorei alguns segundos a responder, mas respondi: “Minha senhora… o assunto era um, mas agora passou a ser outro. Peço-lhe imensa desculpa, mas agradecia-lhe que transmitisse da minha parte ao sr. Joaquim Vieira para ir à merda”. 
Nunca mais esqueci esta(s) história(s). Nem nunca mais falei a esse sujeito…

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