José Paulo Fafe

Uma análise certeira


NÃO MORRENDO propriamente de amores pela personagem em questão, não posso deixar de recomendar a leitura das palavras que Ângelo Correia escreve hoje na sua coluna do “Correio da Manhã”, sob o título “A crise continua“. É difícil ser mais certeiro ao analisar a actuação presidencial nesta crise política:
Cavaco Silva fez um discurso simultaneamente claro e obscuro, mas, onde foi claro, errou e, onde foi obscuro, criou perplexidades. Clareza na necessidade de um “compromisso de salvação nacional”, o que significa a aceitação pelos três partidos PSD, PS e CDS de um programa de ação comum, a ser concretizado por um futuro governo que o respeite e implemente. O anúncio deste projeto é ao mesmo tempo tardio e excessivamente antecipado.

Tardio, porque se Cavaco julgava esse “compromisso” como indispensável, deveria tê-lo colocado aquando da formação do governo. Excessivamente antecipado, porque só após o próximo ato eleitoral, o P. R. deverá de novo recolocar o problema. Por isso, o “compromisso” requerido, até pelo que se sabe da posição do PS, é hipótese inverosímil e Cavaco já o sabia antes de o lançar.
Foi ainda claro, na marcação da data para a realização de eleições legislativas, o que traduz uma genial antecipação do futuro, sabendo Cavaco – seguramente por inspiração de um relevante “orixá”, que, nessa altura, existirão graves problemas que afetam o “regular funcionamento das instituições”, obrigando por isso à dissolução da A. R. e à convocação de eleições. Suponhamos que nessa altura, o estado do País melhorava, a economia progredia um pouco, a consolidação das contas públicas era mais sólida; apesar de tudo isso, e ainda assim, Cavaco convocava eleições. Qual a lógica e a consistência dessa atitude? Mas Cavaco foi obscuro, na definição do que pretende fazer, se o “compromisso de salvação nacional” falhar. Afirma que tem soluções jurídico-constitucionais possíveis. Quais? Para manter uma reserva de poder? Mas não perceberá que assim só prolonga a crise, a ambiguidade, as crescentes dúvidas do exterior?
Gaspar iniciou a crise disparando sobre tudo e todos, nomeadamente o que fora o seu Governo. Passos Coelho fez-lhe suceder alguém que Portas não quer. Este demite-se e depois exige mais poder, remodelação de governo, realteração do seu curso. A crise agudiza-se e quando era previsto que Cavaco lhe pusesse um ponto final, deita gasolina para o chão, acende um fósforo e espera o momento de o lançar. Suspeito que Cavaco ainda vai lançar-nos em eleições antecipadas, ou seja aquilo que ele dissera ser impensável para Portugal.
Que mais nos irá ainda acontecer?

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