José Paulo Fafe

Um "vírus" chamado Santana Lopes…


HÁ UNS
 tempos atrás, numa campanha em que participei no Brasil, o candidato com quem trabalhava teve uma péssima prestação televisiva num daqueles inenarráveis programas da manhã (lá também há…), onde chegou praticamente a vias de facto com um apresentador que, diga-se de passagem, estava lá mais para incomodá-lo que qualquer outra coisa. A posteriori, furioso, o “meu” candidato não escondia a frustração e a revolta decorrentes da sua passagem por um dos programas mais vistos da televisão local e não se cansava de clamar o seu arrependimento por não ter deixado o estúdio a meio, sem antes, note-se, “pregar dois bananos” no apresentador que pura e simplesmente o tinha “esmagado” aos olhos de quem via. Bem tentei explicar-lhe por “a+b” que a última coisa que os telespectadores (no caso eleitores) gostam de ver num político é vê-lo irritado, a perder as estribeiras e a tratar mal o seu “anfitrião”. E tentei dar-lhe alguns exemplos pela negativa, lembrando-lhe alguns episódios protagonizados por um quase sempre irascível Paulo Maluf que fez “escola” no Brasil durante muito tempo pela forma rispída (para não lhe chamar outra coisa…) como tratava jornalistas e adversários. Mas a dado momento, lembrei-me de um “exemplo positivo”, ou seja de uma situação inversa,  onde o político soube simultaneamente manter a calma, marcar posição e “sair por cima” de uma situação que tinha tudo para que as coisas não corressem bem. E socorrendo-me do YouTube, rapidamente  pus o irado candidato a ver aquele famoso episódio, onde há oito anos atrás, um calmo e sereno Pedro Santana Lopes, ainda na “ressaca” de uma atribulada passagem pela chefia do governo, decidiu abandonar os estúdios da SIC, quando os responsáveis pelo espaço onde estava a dar uma entrevista resolveram interrompê-la para mostrar uma suposta chegada ao aeroporto da Portela do técnico José Mourinho.

A reacção entusiasmada do meu interlocutor e as dezenas de vezes em que, a partir daí, assisti a vê-lo citar, mostrar e gabar a atitude de Santana Lopes (pessoa que ele nem conhecia e mal tinha ouvido falar) perante quem o rodeava, dando-o como exemplo de como um político devia reagir numa situação dessas, levou-me a perceber que o chamado “episódio Mourinho” tinha tudo para cair bem por terras de Vera Cruz. Nos dias subsequentes, resolvi “testar” o êxito daquele filme do Youtube – junto de dois ou três políticos e de algumas pessoas que trabalhavam comigo. Sem excepção, todos ficavam maravilhados com a prestação televisiva de Santana Lopes… Há quatro ou cinco meses, na Argentina, numa longa conversa que mantive com dois influentes jornalistas de Córdoba, durante uma campanha que fiz por aquelas bandas, o tema da postura televisiva dos políticos e, nomeadamente, a oportunidade e riscos de assumir uma posição de “confronto” em directo num estúdio, levou-me a recorrer a esse mesmo filme para ilustrar uma situação desse tipo. E também ali, em terras argentinas, a reacção foi a mesma – de espanto e de admiração.

Vem tudo isto a propósito do que aconteceu ha duas ou três semanas atrás, quando um pouco por tudo o que é rede social, este breve filme de pouco mais de 3 minutos começou a tornar-se viral no Brasil e mostrado como exemplo de como um político de devia comportar numa situação semelhante. Começou, salvo erro, numa página de Facebook de um grupo na Paraíba e rapidamente atravessou o Brasil, com milhares e milhares de partilhas pelo País fora, outros tantos comentários, todos eles elogiosos, apresentando Santana Lopes como exemplo e como clamando contra a crescente importância do fenómeno do futebol e da subalternização de tudo o resto perante o negócio do pontapé na bola. A “viralização” do video foi de tal ordem, que chegou mesmo a ser um dos mais vistos nos mais importantes sites brasileiros – no UOL e no G1.

Há dias, um amigo fez-me chegar um link do influente Observatório de Imprensa brasileira, um dos mais conceituados fóruns de discussão dos temas do jornalismo no Brasil, onde o professor sul-matogrossense Lucas Marinho Mourão dedica um artigo ao célebre “episódio Mourinho”. Escreve ele: “O exagero deve ser eliminado. Casos como o de Santana Lopes poderiam acontecer facilmente no Brasil, se houvesse coragem para isso. Entretanto, a mídia conta com a passividade de quem presencia a inversão de prioridades jornalísticas“. Quem diria que, mais de oito anos depois, o abandono em directo dos estúdios da SIC por parte de Santana Lopes, alcançava a repercussão que alcançou no Brasil?

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