José Paulo Fafe

Um bocadinho de nós que passa a ser passado…


CADA TERRA, em cada época, tem as suas personagens. Cascais não foge à regra. Joaquim Pica e Joaquim Oliveira, cada um na sua arte, são dois ilustres cascalenses – não porque aqui tenham nascido, mas sim porque aqui durante anos a fio estiveram à frente dos seus negócios, conhecendo, convivendo e trabalhando para este mundo e o outro. 

O “sr. Pica”, ás e mestre na tesoura e na navalha, espalhou o seu talento enquanto barbeiro ao longo de mais de meio-século, tendo-lhe passado pelas mãos bisavós, avós, pais, filhos, netos e bisnetos, isto já para não falar de muita cabeça coroada, uma infinidade de políticos cá do burgo e até o célebre Mobutu Sese Seko que chegava a mandar o seu avião buscá-lo a Lisboa para que fosse até Kinshasha  cortar-lhe o cabelo … Primeiro no “Sebastião”, ali na Rua Direita, depois no “Cidadela”, mais tarde no já desaparecido “Estoril-Sol”e mais recentemente no “Londres”, o nosso Pica tornou-se numa referência de todos quantos de aqui são ou aqui fazem as suas vidas.
Outra personagem, no melhor sentido do termo, é o “Joaquim da Galiza”. Mecânico de motos, começou a trabalhar ainda rapaz no velho Simplício ali à beira da Marginal, também já lá vão mais de 50 anos. Rapidamente tornou-se um mestre no que a motos diz respeito. A certa altura, em 1973, arriscou e decidiu estabelecer-se por conta própria, abrindo  na Galiza a sua própria oficina e loja, onde rapidamente confirmou que saber, experiência e simpatia não são de todo incompatíveis. A “Yamaha” confiou-lhe uma concessão e durante anos foi de longe o mais importante e destacado representante da marca japonesa no nosso País. Há uns meses, após mais de 30 anos sem o ver, entrei na sua oficina. Lá estava ele atrás do balcão, sempre atento, mexido e simpático: “Então sr. Joaquim, lembra-se de mim?“, perguntei-lhe. Olhou-me, ficou em silêncio três ou quatro segundos e para minha surpresa, disparou: “Claro que sim, és o Fafe. Então o que é feito de ti, rapaz?”. Extraordinário, no mínimo
Esta semana encontrei o sr. Pica e soube pela sua própria boca que se tinha reformado. Anteontem passei pela oficina do sr. Joaquim e ao não encontrá-lo, perguntei a que horas ele voltaria: “Reformou-se“, disseram-me. Fiquei contente, tanto por um como por outro. Por terem trabalhado como trabalharam, por terem deixado amigos em cada um dos clientes e por terem tido oportunidade de gozar um mais que merecido descanso. E também pelo sr. Pica poder dar os seus passeios à beira-mar e almoçar sem pressas na esplanada que o seu filho Luís tem no paredão; e pelo  sr. Joaquim agarrar-se à sua horta que ele tanto gabava e tanto gosta de cuidar. Mas confesso que também fiquei um bocadinho triste… É que, parecendo que não, é um bocadinho de nós que passa a ser passado! 

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