José Paulo Fafe

Um bando de fazendeiros à beira-mar…

PARA QUEM vive em Cascais estes últimos dias puseram à prova o sistema nervoso do mais calmo dos cascalenses, tal o desmesurado novo-riquismo com que as nossas autoridades resolveram receber um bando de fazendeiros (salvo honrosas excepções, diga-se de passagem, não passava disso mesmo – de um bando de fazendeiros!) que este ano resolveu reunir-se numa sala de hotel com vista para o mar, numa reunião pomposamente denominada como “Cimeira Ibero-Americana”. Ao longo de dois ou três dias, a vila Cascais foi fustigada por uma pafernália de sinais de uma liturgia do poder bacoca, desnecessária e própria de um país do terceiro-mundo, mas mesmo do fundo da tabela. Sirenes a repicar a todas as horas; caravanas de automóveis possivelmente transportando um qualquer ministro de segunda-linha da Fava Rica (perdão Costa Rica…) a originar cortes de avenidas; polícias gesticulando freneticamente e apitando de forma ininterrupta para dar passagem a um qualquer bando de “aspones” (deliciosa definição que os brasileiros encontraram para “assessores de pôrra nenhuma”!) de algum secretário de Estado guatemalteco; dois vasos de guerra postados frente à baía, possivelmente a tomarem conta do presidente de El Salvador; helicópteros de um lado para o outro a “sarnarem” o juízo a quem por aqui vai vivendo; e até (pasme-se!) uma esquadrilha de F-16 a cruzar os céus da “Linha”, possivelmente pilotados pelos aviadores da nossa Força Aérea a quem são recusadas horas de treino por falta de verba para combustível… E não me venham dizer que tudo isto se justificava pelo “elevado risco de segurança” dos chefes de Estado e Governo presentes na cimeira, até porque Raul Castro e Hugo Chávez, por exemplo, não participaram nesta reunião. Resta o Rei de Espanha que por aqui viveu e que, vindo cá amiúde, nunca foi alvo de uma tão “barraqueira” e desajustada protecção…

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