José Paulo Fafe

Tomás Taveira – a propósito de um artigo da "Sábado"

TT

ELE É daquelas pessoas de quem se gosta ou se odeia – com ele não há meio termo. Eu sou dos que gosto! Fanfarrão? Claro que sim! Arrogante? Também! Capaz do melhor, mas também do pior? Hmmm, admito que sim, embora com algumas reticências. “Ele” chama-se Tomás Taveira, já vai quase nos 80 (!) e, pese a dor de cotovelo de alguns (alguns não, muitos…), marcou a arquitectura portuguesa do século XX como o fizeram, antes dele, por exemplo, Cassiano Branco, Raul Lino, Francisco Keil do Amaral, Nuno Teotónio Pereira, Conceição Silva ou Pancho Guedes, este ainda hoje um desconhecido para a esmagadora maioria das pessoas.

Conheci-o já lá vão muitos anos, era eu um miúdo, no início dos anos 80, num jantar no restaurante “O Pescador” em Cascais, à volta de uma mesa “presidida” pelo famoso Lapinha, um construtor que “deu cartas” na região nos anos 70 e que o arquitecto tinha então como um dos seus principais clientes. Taveira era já, onde quer que estivesse, o centro das atenções, mercê porventura daquele seu jeito meio rufia, daquele tom provocador, daquela sua aparente auto-suficiência que – ninguém me tira da cabeça – sempre serviu no fundo para “disfarçar” alguma timidez ou “desconforto social” que por vezes ele sentia em certos meios. Mas rapidamente percebi que Taveira também tinha um “outro lado”, o de uma simpatia genuína, o de uma sinceridade por vezes desconcertante e de uma ingenuidade que, diga-se em abono da verdade, muitas vezes lhe custou bem caro ao longo dos anos. Lembro-me bem desse jantar e como acabou, ou melhor, onde acabou – no mítico “Bananas”, que tinha aberto há dias, e onde o então casal Taveira e eu nos dirigimos a pedido de Tomás que à força queria conhecer o espaço, o qual curiosamente viria adquirir um ou dois anos mais tarde.

A partir daí, com maior ou menor regularidade, comecei a dar-me com o controverso Taveira – umas vezes melhor, outras pior, reconheça-se. “Pegámo-nos” algumas vezes, outras estivemos juntos em ocasiões mais difíceis e bem complicadas da sua vida, como há exactamente 26 anos atrás… Lembro-me (e faço “gala” disso mesmo!) que no início dos 90, ainda no rescaldo do famoso escândalo que o atingiu e contra a opinião de “muito boa gente”, fiz questão de convencê-lo a escrever uma vez por mês na última página da “velha” revista “Sábado”, onde eu então possuía responsabilidades editoriais. Recordo-me bem do que ele me disse num fim de tarde, quando o fui desafiar ao atelier da Avenida da República: “Ó Paulinho, tu estás doido pá?! Queres perder leitores, é? Não percebes que eu hoje sou assim mais ou menos como lepra?!”. Acreditem que não foi fácil convencê-lo, combinámos então fazer só uma experiência e que depois veríamos as reacções que, curiosamente, vieram a ser as melhores possíveis.

Uns anos mais tarde foi ao contrário. Dirigia eu a redacção do “Tal&Qual”, quando nos surgiu um “zunzum” qualquer sobre o pavilhão de Angola na “Expo 98”, uma coisa assim do género e em que Taveira estava envolvido como autor do projecto. Pedi a um jornalista para lhe ligar, com o objectivo de confirmar algumas informações que tínhamos. Do outro lado da linha, ao Paulo Delgado (ou terá sido ao Augusto Freitas de Sousa?) saiu-lhe na rifa o “Taveira-fanfarrão” que confrontado com as perguntas do jornalistas não encontrou melhor reacção que disparar: “Ó pá não me lixe… Você não vai publicar pôrra nenhuma porque o Fafe é meu amigo e o gajo não o vai deixar!“. E pumba, desligou o telefone na cara do atónito repórter que, minutos mais tarde, estava à minha frente a contar o episódio. “Escreve”, disse-lhe eu. “Posso?“, perguntou-me. “Claro que sim”, disse-lhe. Resultado? Acabou manchete e, se bem me lembro, com umas demissões no governo angolano pelo meio… Semanas mais tarde, encontrei Taveira à porta do clube das Olaias e foi o bom e o bonito – por um triz não chegámos a “vias de facto” perante a estupefacção de quem assistia aquilo que foi verdadeira  “peixeirada”.

Hoje, ao ler atentamente o bem-informado e interessante texto de André Rito na “Sábado” sobre as Amoreiras e o seu “pai”, não pude deixar de lembrar-me de tudo isto. De há quanto tempo conheço o Tomás Taveira, de tudo o que já passei com ele, dos momentos bons, das zangas, das reconciliações, mas principalmente de uma história que revela bem de que “massa” ele é feito. E essa história passou-se numa das últimas vezes em que estive com Taveira, num jogo de futebol no estádio da Luz, cujo projecto arquitectónico estivera a seu cargo mas que, à última hora, os então responsáveis do Benfica tinham “chutado para canto”, num processo que creio chegou a andar pelos tribunais. Taveira nunca tinha entrado na “nova Luz” e eu não fazia a mínima ideia disso quando o convidei para assistir num camarote a um qualquer jogo europeu do Benfica, só o tendo sabido quando nos dirigíamos para lá. Esperei pois o pior, ou seja, a maior “chuva” de críticas daquele que fora o arquitecto preterido quando confrontando com o interior do estádio. Parámos o carro, subimos o elevador, cruzámos o corredor, abrimos a porta do camarote e Taveira ficou estático, olhando para o estádio, já então “à pinha”. Ao fim de uns longos segundos (ou terão sido minutos?) e quando eu esperava ouvir o pior, veio exactamente o contrário: “É pá… fantástico! Grande estádio, sim senhor…”, exclamou sincero, gabando o projecto da empresa australiana que o Benfica tinha à última hora preferido em seu detrimento. E à saída, no fim do jogo, já no carro, não esqueço, o que ele me disse: “É do melhor que eu já vi em termos de estádios“… É por estas e por outras que eu gosto do Tomás Taveira!

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