José Paulo Fafe

Sobre o bloqueio, a partir de uma pequena história no Malecón…


JÁ LÁ vão uns bons anos, mas é uma história de que me lembro amiúde. Palco? O Malecón em Havana, por volta das 4 ou 5 da manhã. Intervenientes? Um agente da Polícia Nacional Rodoviária e eu próprio. O diálogo? Longo e à volta de um suposto excesso de velocidade por mim cometido:

– “Compañero, venía usted a más de 120 quilómetros por hora…
– Yo? No, que va!
– Seguramente que sí. Sus documentos, por favor…
– Cuál es la velocidad permitida en este tramo del Malecón?
– Sesenta quilómetros por hora, compañero!
– Entonces venía a 55 quilómetros por hora!
– Como?!
– Sí, a 55 quilómetros, máximo 60… Usted tiene radar?
– Radar? No…
– Si no tiene radar, venía a esa velocidade. Entre los 55 y los 60…
– Mira compañero: nosotros no tenemos radar para controlar la velocidad porque el imperialismo nos impone un bloqueo criminoso, condenado por la aplastante mayoría de las naciones del mundo, que nos impide de tener aceso a las tecnologías que…
– Sí, pero la verdad es que no fui controlado por radar y le aseguro que no rebasé los 60 quilómetros por hora…
– Le vuelvo a decir compañero, que la responsabilidad de la PNR no poseer radares se prende con la política imperialista con que los Estados Unidos cercan al primer territorio libre en America y impiden nuestro heroico pueblo de…
– Tendrá usted razón, pero la verdad es que si no tiene radar, yo venía a 60 quilómetros por hora (…)”

Escusado será dizer que a partir daquele momento a conversa centrou-se, não no meu excesso de velocidade (confesso, não devia vir a menos de 100 quilómetros/hora…), mas sim nas relações entre Cuba e os Estados Unidos e nas consequeências do bloqueio económico que o grande vizinho do Norte impunha ao país de Fidel Castro. Durante mais de um quarto de hora, em plena madrugada habanera, “levei” com uma retórica alinhada, marcadamente ideológica e que acabou com um forte aperto de mão, deixando para trás uma mais que óbvia e justificada multa.
Serve esta pequena história para ilustrar o quanto importante no quotidiano cubano tem sido o bloqueio norte-americano e como está presente na cabeça das pessoas, até do simples polícia que deixa para trás uma multa para debater as consequência do embargo. Ao longo destes quase 53 anos, o bloqueio tem servido um pouco para tudo: por um lado para, sem êxito, os Estados Unidos tentarem estupidamente “estrangular” um regime; por outro para esse mesmo regime justificar ardilosamente algumas faltas e outros excessos, tanto num dia a dia que teve fases muito, mas muito difíceis mesmo, como também em matéria de direitos e liberdades individuais. 
Há quem defenda que a revolução cubana se radicalizou a partir do momento em que os norte-americanos impuseram um bloqueio que julgavam ser de curto-prazo, pelo que a Fidel não lhe restou outro caminho senão “encostar” à então poderosa União Soviética que, até finais dos anos 80, sustentou na verdadeira acepção do termo, a economia cubana. Uma tese que possui alguma lógica, até porque sabemos que, ao longo da história, não foram poucas as vezes que as administrações norte-americanas mostraram ser um “zero à esquerda” no que se refere à política internacional e deram autênticos “tiros no pé”…

(Permitam-me um parêntesis: conta-se que na véspera de assinar o decreto presidencial que impunha o bloqueio a Cuba, impedindo toda e qualquer importação de produtos cubanos, o presidente John Kennedy chamou discretamente o seu assessor Pierre Salinger e pediu-lhe que providenciasse a compra de todos os charutos H.Upman que estivessem à venda em Washignton. No dia seguinte, só após assegurar-se que tinha na sua reserva mais de mil e 200 “puros”, é que Kennedy rapou da caneta e assinou o famoso decreto presidencial…)

Contrariamente ao que muitos pensam, o anunciado e previsível fim do bloqueio não vai  ser o fim do chamado castrismo. Não, nem pensar. Mais uma vez, parece que os irmãos Castro trocaram as voltas à história e para quem vaticinava um fim estrondoso e até traumático, tudo indica que o castrismo vai, isso sim, pura simplesmente diluir-se. Lenta, calma e progressivamente. Sem que nem uns cantem vitória, nem outros chorem a derrota…

1 comentárioDeixe um comentário

  • Amigo ZPF
    Tenho muitos amigos Cubanos a viver em Madrid,uma tia casada com um irmão do meu Pai que “fugiu” na altura da revolução e um grande amigo escritor,Nelson Simón, que vive em Cuba em Pinar del Río y está neste momento em Miami para receber mais um prémio.
    Todas as ditaduras cometem tremendos exageros,sejam elas de direita ou esquerda.China e Coreia do Norte à cabeça pois são as mais sanguinárias seguidas de Rússia que de forma “disfarçada” assassinam os opositores.
    Mas as piores são as “embuçadas” em falsas democracias,como Angola,Rússia,Venezuela(e vários Países latino-americanos) e até em Portugal tivemos esse sabor com os Governos Sócrates.(ordenou boicote a todos os Jornais que falavam dos podres dele que deixaram de ser comprados nas instituições do Estado, telefonava a ameaçar,ele mesmo ao princípio de depois mandava os lacaios,chamadas anónimas[até eu as recebi],e segundo ouvi o Director do Correio da Manhã, tentou comprar o Jornal para o calar,fora a forma como tratava os seus “empregados”..Ministros,secretários de estado,assessores,secretárias etc).
    Concordo contigo quando dizes que Castro endureceu o regime com o exagero americano.
    Apesar de alguns extremistas cubanos em Miami fazerem muito “ruído”, todos os meus amigos,inclusive os que lá vivem,estão contentes com esta mudança e acham que o regime tem que acabar suavemente até porque o povo Cubano não está preparado para uma mudança radical.
    Obama infelizmente não pode fazer mais pois os Republicanos não o deixam,mas a semente foi lançada.
    De momento temos o Run/CocaCola mas no futuro Cuba será finalmente “Libre”………..

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