José Paulo Fafe

Sampaio da Nóvoa e a "obrigação" de ganhar à primeira volta


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                                                                                                                                               © Alfredo Cunha

HÁ QUEM diga que, na política como em tudo na vida, a história se repete. Eu começo a acreditar que sim, especialmente quando, quase vinte anos depois, o cenário que se avizinha para as próximas presidenciais me lembra o que ocorreu em 1996, quando Jorge Sampaio e Cavaco Silva disputaram a sucessão de Mário Soares numa eleição renhida e muito disputada. Á direita, sozinho, Cavaco recolhia o apoio do PSD e do CDS que, apesar de algumas reticências, não hesitou em apoiar o já então antigo primeiro-ministro: à esquerda, Sampaio tinha o natural apoio do PS, enquanto PCP e UDP preferiram apresentar, cada um, o seu candidato – Jerónimo de Sousa e Alberto Matos, respectivamente. Ainda que as sondagens, todas elas, apontassem para uma ligeira vantagem de Sampaio, rapidamente ficou claro que só a desistência do candidato comunista é que poderia possibilitar ao candidato apoiado pelos socialistas ganhar à primeira volta e impedir assim um “segundo turno”, onde muitas vezes não se aplica a mera lógica aritmética. E foi exactamente isso que aconteceu, quando poucos dias antes da ida às urnas, o PCP decidiu abdicar a favor de Sampaio, permitindo assim a sua vitória à primeira volta, sem necessidade de recorrer a um “segundo turno”, onde muitas vezes a lógica aritmética não é soberana.

Vem tudo isto a propósito de António Sampaio da Nóvoa, que hoje formaliza a sua intenção em candidatar-se à Presidência da República. É que tanto agora como há vinte anos atrás, a “obrigação” de ganhar à primeira volta afigura-se indispensável para o antigo reitor da Universidade de Lisboa, seja quem for o candidato presidencial à sua direita – chame-se ele Marcelo Rebelo de Sousa, Rui Rio ou outro que seja. Sampaio da Nóvoa sabe que é essencial agrupar a maioria sociológica de esquerda existente no eleitorado para ser eleito logo na primeira chamada às urnas, impedindo assim o candidato à sua direita de dramatizar e levar a eleição para uma hipotética segunda volta de contornos mais radicais e fracturantes. Para isso,  Nóvoa precisa que os comunistas repitam nesta eleição exactamente o que fizeram em Janeiro de 1996, quando, usando uma terminologia hoje cara a Marcelo,  Jerónimo de Sousa “encostou à berma” e deixou passar um célere Sampaio em direcção a Belém. Não vou aqui afirmar que o antigo reitor está nas mãos dos comunistas, nem pensar. O que sim estou certo é que, sem uma “abdicação” do PCP, de preferência, a poucos dias da ida às urnas, a tarefa de Sampaio da Nóvoa para eleger-se Presidente da República obrigará a uma segunda volta, que só convirá e interessará ao espaço político do centro-direita. Talvez por isso mesmo, é que nas últimas semanas e após mostrar publicamente um “receio” – desta vez sincero… –  relativamente à candidatura de Nóvoa, Marcelo tem-se esforçado tanto por piscar o olho à sua esquerda, como também por isso, ainda por cima num momento em que as sondagens lhe auguram um excelente resultado nas legislativas, o PCP “marca pontos” neste ano eleitoral.

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