José Paulo Fafe

Raul Solnado

ERA EU um miúdo de dez ou onze anos quando o vi pela primeira vez. Terá sido nos princípios da década de 70, creio que em casa de Arménio Ferreira, outra extraordinária figura de tempos que, por muito que nos esforcemos, não mais voltarão. Naquele tempo, para mim, trinta e tal anos mais novo que ele, o Solnado era um mito, era o do “Zip”, de “Ranholas City”, do “podiuuuuó chamá-lo?” e das mil e uma frases que o celebrizaram e nunca se apagaram da memória para todos os que consideramos “humor” sinónimo do seu nome. O Solnado era daquelas pessoas que pelo que fazia e pelo que era se admirava e respeitava – sem esforço e com naturalidade.
Anos mais tarde, o Solnado passou a ser “o Raul”, mercê de amigos comuns – e aqui estou a lembrar-me, por exemplo, de Humberto Roque Gameiro (um verdadeiro “príncipe” que encheu uma certa Lisboa de “charme”, graça e inteligência), de João Soares Louro, de Joaquim Letria ou de António Serra Lopes. Fomos conhecendo-nos, almoçámos e jantámos umas quantas vezes (estou a lembrar-me de um memorável jantar faz agora vinte anos lá para as bandas da Aroeira), assistimos a espectáculos juntos e chegámos mesmo a fazer uma viagem a Salamanca.
Apesar da diferença de idades tratávamo-nos por tu e cada vez que nos encontrávamos não resistia a recordar a mais deliciosa estória que conheci tendo o Raúl como protagonista, contada como foi pelo “tio Gameiro” e com a qual, muitas vezes, não resistia a confrontar o Raul. Nesta altura, em que (e o nosso País é “perito” nessas coisas…) as chamadas e milhentas “viúvas” do Raul surgem onde estiver qualquer câmera de televisão e debitando inaudíveis e inenarráveis lugares-comuns, não resisto a recordá-la tal e qual me foi contada – e nunca desmentida pelo principal protagonista:

Meados, finais da década de sessenta numa Lisboa cinzentona e murcha. Humberto Roque Gameiro e Fernando Oneto resolvem combinar uma ‘patuscada’ num apartamento em Benfica, onde viviam duas amigas e prometem levar-lhe ‘o Solnado’ desde que elas se comprometam a convidar uma terceira amiga. Negócio fechado, Raul avisado, jantarinho marcado para as sete e meia. Às oito, do Raul… nada. Oito e meia, idem aspas. Nove menos um quarto, lá finalmente aparece à porta de casa das amigas do Gameiro e do Oneto: ‘Desculpem lá, mas esqueci-me que andar é que era e se não fosse a porteira andava p’raí a tocar às campaínhas todas…‘. Mas os amigos tinham uma má-notícia para lhe dar. A amiga das amigas, a tal que à partida estava destinada a ser a parceira do Raul, à última hora não podia vir: ‘Parece que o marido chegou mais cedo do Porto do que estava previsto‘, justificou Fernando Oneto, ao mesmo tempo que o desafiava a encontrar uma substituta. ‘A esta hora?! Impossível!‘, queixava-se Solnado, ao mesmo tempo que apelava para as agendas telefónicas dos amigos e das anfitriãs que iam pondo a mesa e acendendo as velas, tentando criar assim um ambiente mais íntimo (propício dirão outros…) para o jantarinho que se avizinhava. Nada, aquela hora ninguém conseguia resolver a situação. Até que o próprio Raul resolve arriscar: ‘Só se for… a porteira!‘. Gameiro e Oneto entreolharam-se boquiabertos: ‘A porteira?! Tás doido, pá?‘. Não, não estava: ‘É nova, jeitosita, deve ser viúva porque estava vestida de preto e nem imaginam a festa que me fez lá em baixo quando me reconheceu…‘, justificou perante o assentimento das anfitriãs, uma das quais, antes que fosse tarde, se precipitou escada abaixo, regressando um quarto de hora mais tarde, exibindo orgulhosa uma apressadamente arranjada D.Conceição (nome suposto, obviamente) e sentando-a à mesa num inesperado ‘tête-a-tête’ com um Solnado visivelmente deliciado com ele próprio e com a sua ‘saída’. Parece que o jantarinho correu bem, que as senhoras ficaram deliciadas (e expectantes…) com os seus pares e ao segundo ‘whisky’ após o repasto e como diria alguém ‘chacun se amanhe‘, que é como quem diz cada um arranjou o seu cantinho. A Solnado, ao que parece, calhou-lhe o sofá da sala para ‘surripiar uns prazeres‘ à ofegante porteira que, viuvez deitada para trás das costas e verdadeiramente babada com o ‘sô Solnado‘, entregava-se ufana aquele que era, semana sim semana não, capa da ‘Plateia‘ ou presença constante na rádio e na televisão. Uns bons quartos de hora mais tarde e ao que parece, ou por inépcia da D. Conceição (coitada, já pouco habituada aquelas ‘actividades circumescolares‘…) ou porque Raul não estaria reagindo com ‘a prontidão habitual‘, de repente ouviu-se uma voz vinda do sofá que num tom que misturava lamento com alguma preocupação, lançou: ‘Ó sô Solnado veja lá se despacha isso, que eu à uma tenho de ir esvaziar os caixotes…‘.

Desculpem qualquer coisinha, mas esta é a minha forma de recordar o Raul!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *