José Paulo Fafe

Capacidade de surpreender

A PROPÓSITO deste “folhetim” grotesco que foi a tentativa de Fernando Nobre em encontrar um “poiso” para, durante quatro anos, aninhar-se a preparar mais uma candidatura à Presidência da República, tem-se voltado muito a falar da sucessão de Cavaco Silva, cujo processo ocorrerá (já) em 2014 – ou seja daqui a dois anos e meio… E como sempre, os nomes, as hipotéticas candidaturas e os supostos apoios surgem nos mais variados cenários que cada um traça e ajeita a seu gosto, ainda que tanto Marcelo Rebelo de Sousa como Durão Barroso façam quase sempre parte do elenco dos “presidenciáveis” que são postos na mesa. Dois nomes que eu, sem querer propriamente armar-me em “vidente”, acho serem exactamente os que menos probabilidades podem vir a ter em sequer ser candidatos. O primeiro – o inefável prof. Marcelo – por uma super-exposição enquanto analista político que, tanto pelo excesso como por certas posições algo susceptíveis de não gerar grande entusiasmo no que naturalmente seriam as suas hostes; o segundo – Durão Barroso – por três razões que eu considero de peso e que, sabendo do seu exacerbado calculismo, considero que ele terá muito em conta: a primeira, que tem a ver a ver com o facto de ele ter a perfeita noção que o País ainda não esqueceu a forma célere, atabalhoada e algo oportunista como ele, de um dia para o outro, trocou S. Bento por Bruxelas, pouco importando-se com o mandato que pouco tempo antes os portugueses lhe tinham confiado; a segunda, porque a “agenda” e network com que ele sairá em 2014 da presidência da Comissão Europeia tem um prazo e “valor” (na verdadeira acepção do termo) limitada a quatro ou cinco anos, o que lhe possibilitará até ao final desta década poder rentabilizá-la como poucos ao serviço de um qualquer Carlos Slim da vida; e a terceira porque tem ainda idade e “paciência” (de chimês, como diriam os seus amigos…) para esperar o “seu momento”.
Dificilmente Cavaco Silva não cairá na tentação de tentar indicar um “sucessor” e aí António Barreto deve estar no topo das preferências do casal presidencial, tal o “colo” que lhe ultimamente lhe têm dado a todos os níveis. Mas será que o País suportará mais cinco ou dez anos daquele estilo, daquela maneira professoral e pretensamente superior de quem se julga uma espécie de “Messias” vindo do além? E que o PSD aceitaria caninamente uma suposta indicação vinda de quem sempre colocou os seus interesses pessoais à frente dos do seu partido? E se do lado do PS, surgisse um Jaime Gama, cujo estilo, consensualidade e maneira de ser, cativa à esquerda mas também à direita? Alguém duvida que uma possível candidatura do antigo presidente da Assembleia da República esfrangalharia o eleitorado tido por mais conservador? É por isso que, tanto como responsabilidade de governar, Passos Coelho tem a partir de agora também a responsabilidade de, nos próximos anos, ajudar a clarificar águas e encontrar os caminhos e os protagonistas certos para os “novos temos”. E o que ocorreu ontem, com a eleição de Assunção Esteves, é um bom prenúncio e uma esperança que algo possa (mesmo) mudar! E revela uma saudável e desejável capacidade de surpreender…

1 comentárioDeixe um comentário

  • muito bem posta a questão. eu acho que em 2016 o candidato devia ser alguém diferentes destes cromos repetidos que por aí andam.
    nem barroso, nem barreto,nem marcelo,nem nada disso.
    eu apostaria num perfil diferente como o de santana lopes se até lá fizer o caminho bem feito.
    Agora de tipos do avental já chega. O nosso país tem de se livrar dessa seita

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