José Paulo Fafe

A propósito de uma frase do dr. Arons…

COMEÇO POR recorrer-me de uma frase: “(…) uma ameaça não é grave pelo efeito que tem, mas pelo efeito que se pretendia que viesse a ter(…)“. O autor? Alberto Arons de Carvalho, actualmente membro da ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social), pessoa que conheço há anos (muitos) e que até há algum tempo atrás considerei como alguém estimável. Em que contexto foi proferida essa frase? No âmbito da decisão tomada pela ERC após o processo de averiguações levado a cabo relativamente ao caso das alegadas pressões que o ministro Miguel Relvas sobre uma jornalista do “Público – mais concretamente na declaração de voto (vencido) que Alberto Arons de Carvalho celeremente produziu e divulgou.
Após este “intróito” e a propósito desta frase, que tive o cuidado de contextualizar, não resisto a contar o ocorrido, salvo erro no início de 1998, trabalhava eu então como jornalista no semanário “Tal&Qual” e integrava Alberto Arons de Carvalho o governo de António Guterres como secretário de Estado da Comunicação Social… 

*

Tudo começou quando, através de fontes do próprio governo, soubemos que o então primeiro-ministro, por força da doença da sua mulher Luísa, passava grande parte da semana em Londres, chegando ao ponto de cancelar parte da sua agenda oficial. Nada de extraordinário (bem antes pelo contrário…), salvo o facto dessas ausências do chefe do governo (mais do que justificadas, note-se!) serem feitas à socapa e à revelia, ou seja, sem que, contrariamente a a tudo o que seria ética e republicanamente recomendável, o gabinete do primeiro-ministro emitisse tão simplesmente uma nota oficial em que comunicasse, por exemplo, que “devido a problemas de ordem familiar, durante algumas semanas” o chefe do governo seria obrigado a ausentar-se periódica e regularmente do País. Tão simples quanto isso – aliás no próprio governo existia na altura quem defendesse esse tipo de comportamento e transparência. Mas não, no gabinete de Guterres prevaleceu a tese de esconder as viagens privadas (e realce-se, obviamente compreensíveis) do primeiro-ministro, chegando mesmo quem tivesse garantido ao próprio chefe do governo existir um “acordo” com os jornais da época em que estes, através dos seus directores, se comprometiam a “não tocar no assunto”. Desconheço se esse acordo existia, ou não. Sei – isso sim – é que connosco, no “Tal&Qual” ninguém falou, porventura por não nos incluírem naquilo que, já na altura, se denominava como “imprensa de referência”… A verdade é que no “T&Q”, sabedores de tudo o que se passava (até porque as nossas fontes começavam no governo e acabavam na própria família de Luísa Guterres…),  discutimos longamente a oportunidade, ou não, de pegar no assunto. Nesse debate interno (onde participaram quem na altura possuía alguma responsabilidade no seio do jornal) , foram pesados prós e contras, sobre o que do nosso ponto de vista era ética e deontologicamente aceitável e as “fronteiras” que não poderíamos (ou devíamos) pisar. Lembro-me que na altura, num contacto que entretanto foi estabelecido com o inner circle de Guterres sobre o tema, presurosamente alguém do lado de lá, atabalhoadamente e a despropósito, veio a invocar o tal famigerado acordo (ou “pacto de silêncio”, chamemos-lhe assim) para o qual nunca tínhamos sido tido ou achados, mas no qual, de um momento para o outro, pelos vistos já estávamos incluídos – sem nunca sequer termos sido consultados.

Abreviando… O facto é que no “T&Q” decidimos “pegar” no assunto, tendo sido eu e o repórter fotográfico José Carlos Pratas (a quem se deve, em grande parte, o êxito da primeira das reportagens) encarregues de acompanhar o tema. Foi o que fizemos durante algumas semanas, numa investigação jornalística que implicou dezenas e dezenas de contactos, duas ou três atribuladas viagens a Londres e outras tantas matérias jornalísticas publicadas. Aparte de um outro título ou “manchete” que eu, hoje em dia, possa achar como excessivo ou mesmo discordar, não existe em nenhuma linha das reportagens que escrevi sobre o assunto nada que fosse mentira ou tivesse sido alvo de desmentido ou que não tivesse sido previamente confirmado. 
Não vou aqui enumerar as pressões que o “T&Q” recebeu ao longo dessas semanas. Foram muitas, variadas e vindas um pouco de todo o lado. Umas mais subtis, outras mais “à bruta”, mas todas com um único e só objectivo – que, pura e simplesmente, nos calássemos. Não o fizemos. Existe uma, porém, que eu não esqueço – mesmo que tenham passado os 14 anos que passaram… Foi a exercida pelo então secretário de Estado da Comunicação Social através de um telefonema feito para o José Rocha Vieira, na altura responsável máximo do jornal e no qual o governante em causa ameaçou em queixar-se aos na altura eram proprietários do jornais (o grupo suiço Edipresse) sobre o comportamento do “T&Q”, bem como alertá-los para as consequências que, a todos os níveis, que isso poderia ter para  as publicações que o grupo editorial detinha em Portugal. Mais: nesse telefonema, em que também “fui metido ao barulho”, Alberto Arons chegou mesmo ao ponto de “alvitrar” que governo poderia vir a considerar como “indesejável” qualquer investimento que, no futuro, a Edipresse pretendesse vir a fazer no nosso País. Lembro-me, como se fosse hoje, da extraordinária, irónica e inteligente resposta do Zé Rocha Vieira: “O melhor é o Arons falar directamente com o escritório de advogados que tratou da ‘entrada’ da Edipresse em Portugal – o do dr. Jorge Sampio e do dr. Vera Jardim …“.
Na altura, o telefonema foi-me contado timportim pelo próprio Rocha Vieira. Talvez por conhecer o Alberto Arons desde os anos 70, por até sempre ter mantido com ele uma relação cordial, a minha reacção foi – mais do que tudo –  de profunda desilusão, até porque uma atitude dessas era oposta a tudo o que, como autor, professor, deputado, membro do Conselho de Imprensa e até jornalista (ainda que por breves três anos), Alberto Arons sempre defendera. Lembro-me que na altura enviei-lhe um cartão para o seu gabinete na sede da Presidência do Conselho de Ministros e em que (sic) o mandei “badamerda“. Soubesse o que sei hoje e aposto singelo contra dobrado que nessa missiva apenas teria escrito uma frase: “Uma ameaça não é grave pelo efeito que tem, mas pelo efeito que se pretendia que viesse a ter“.

16 ComentáriosDeixe um comentário

  • Permita-me expressar a minha sincera admiração por ainda existir quem saiba remar contra a maré do que chamam politicamente correcto, neste caso por si. De facto, este seu “regresso” a um passado assim não tão distante mostra bem como se portava o dr. Arons de Carvalho quando se sentava na cadeira onde hoje se senta o dr. Relvas. Se Alberto Arons de Carvalho tivesse vergonha na cara, tinha-se abstido de produzir uma declaração de voto que é cinica, hipócrita e mostra até que ponto pode ir o descaramento. Parabéns!

  • Peço desculpa pelo anonimato, mas ainda não estou na reforma…Sou jornalista da RTP há muitos anos e tive o azar de já lá estar quando esse Arons de Carvalho pura e simplesmente mandava na 5 de Outubro. Punha e dispunha, dando ordens aos “peões” que lá tinha colocado. Se ele tivesse vergonha, metia a viola no saco neste caso. Mas pelos vistos não tem….

  • E o sr. Paulo Fafe? Não é comissário político do dr. Santana Lopes? Nunca pressionou ninguém para salvar o amiguinho? Deixe-se de coisas! São todos iguais, só se lembram do que lhes convém

    luis ventura

  • Zé Paulo, um dos motivos porque muita gente nao gosta de si é presisamente por causa dessa “maldita” memória. tentarei tê-lo como referencia Abraço

  • Não posso deixar de fazer a pergunta ao Ventura. Salvar do quê? Estou muito curioso por saber, ou então… “deixe-se de coisas”!

  • Que não se limpe a face suja de Relvas com a face suja de Arons…ambos ficam mal nesta fotografia…muito mal… e para mal dos nossos pecados não andam sozinhos.
    É apanágio das nossas lideranças politicas interferirem directa ou indirectamente nas opções editoriais, este atentado à democracia acontece nos meios de comunicação de abrangência nacional mas também acontece ao nível local e regional, talvez até de forma mais grave e reincidente.
    Da a esquerda à direita toda a classe politica mete a foice nesta ceara. Entre os “corajosos” que arriscam corromper por se sentirem impunes e os cobardes que se deixam corromper não há inocentes.

  • Sr. Ventura,
    Não fui e não sou “comissário político” do dr. Santana Lopes. Se pressionei alguém para “salvar o amiguinho”. Nada mais falso. Erro e precipitação da sua parte. Nem nunca o fiz, nem certamente o dr. Santana Lopes terá precisado de ser “salvo”. Aliás, diga-se em abono da verdade, é isso que o diferencia de muita gente que por aí anda na vida política e que – sabe que mais? – não tem qualquer salvação. Estamos entendidos?

    RCP,
    Hole in one?

    Luis Gomes,
    Não pretendi salvar a face de quem quer que seja – apenas e só recordar uma história bem oportiuna.

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