José Paulo Fafe

Sem palavras…

POR RAZÕES que não são para aqui chamadas, acompanhei a morte de José Saramago à distância, que é como quem diz longe de Lisboa. Mas apesar disso tive oportunidade de seguir com uma razoável atenção o “folclore” previsível que se seguiu ao anúncio do falecimento do escritor, desde o chorrilho de lugares-comuns dos “comentadores de serviço”, com especial destaque para uma senhora que, durante um quarto de hora em directo no “Jornal da Tarde” conseguiu falar mais dela própria e da sua alegada intimidade (com ementas de supostos jantares e tudo!) com Saramago do que do próprio; para a irresistível tendência mostrada pelos afoitos repórteres em “ressuscitar” uma polémica pateta que opôs – vai para duas décadas – um idiota que chegou a subsecretário de Estado e que ainda dá pelo nome de Sousa Lara a um intragável Saramago; para uma impecável postura do primeiro-ministro (as verdades são para se dizer…) em recusar entrar em fáceis aproveitamentos políticos relativos a esse episódio ocorrido num governo PSD; e à retransmissão de uma reportagem sobre o escritor e em que a protagonista era nem mais nem menos que a insuportável D. Pilar, tantas eram as suas aparições no ecrã (uma delas até em amena “cavaqueira” com um jumento, pasme-se…) e os bitaites proferidos pela referida senhora a propósito de tudo e de nada. Para rematar, vejo agora que a ausência de Cavaco Silva da “romaria” em que se transformou o funeral do escritor tornou-se no grande tema da semana, quase a rivalizar com os 7 a 0 que a selecção inflingiu aquele bando de atletas do país do grande e eterno líder Kim Il Sung e provocou um debate aceso entre quem queria ver o Presidente da República a prestar a chamada “derradeira homenagem” a Saramago e os que acham que Cavaco não iria lá fazer nada. Eu até tenho a minha opinião, mas como esse pretenso vulto da nossa intelectualidade chamado Gabriela Canavilhas veio afirmar, com pompa e circunstância, que o marido da D.Pilar tinha “levado as palavras todas”, fico-me por aqui…

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