José Paulo Fafe

Pedro Santana Lopes: les jeux sont faits…


POR RAZÕES que não vêm para o caso, só hoje li a longa entrevista que Pedro Santana Lopes deu ao “Público”. E embora seja visto pela generalidade das pessoas como “suspeito” em tudo o que possa dizer respeito ao actual provedor da Santa Casa, como se diz habitualmente… “temos pena”, pelo que ainda não será desta que, para contrariar essa ideia e para disfarçar uma isenção que obviamente não possuo, irei escrever o que não penso.
Antes de mais, considero que a entrevista – toda ela – cautelosamente “pesada”, pensada e reflectida é  o “sinal” claro e inequívoco que Santana Lopes escolheu para mostrar publicamente que é candidato à Presidência da República, pretendendo assim marcar terreno fundamentalmente em relação a Marcelo Rebelo de Sousa, cuja candidatura parece ter ganho algum élan após o congresso do Coliseu. E isto mesmo que Santana afirme que não acredita que Marcelo chegue alguma vez a avançar…
Mais: é uma entrevista onde fez questão de “descolar” do governo em duas ou três áreas, aliás como o tem feito nos últimos tempos; uma entrevista onde mostrou um particular à-vontade em abordar temas económicos e europeus; uma entrevista onde interpretou o sentir da generalidade dos portugueses em querer ver os dois principais partidos sentados à mesa a dialogarem; uma entrevista onde voltou a reafirmar um discurso social extremamente abrangente e onde todos nos revemos; e finalmente uma entrevista onde tentou mostrar-se alguém tolerante, aberto e sem ressentimentos. A referência que faz a José Sócrates (que pelo menos na edição onlinetem honras de título principal) é um exemplo dessa mesma imagem que pretendeu transmitir e que – honra lhe seja feita… – não é tão artificial quanto alguns possam pensar. Houve quem tivesse ficado espantado  com a posição mostrada relativamente ao seu sucessor na residência oficial de S. Bento, pouco se importando se de facto, ou não, Sócrates desenvolveu em algumas áreas políticas correctas e tomou medidas acertadas. Dizem-me (e já me disseram): “Ele não podia ter afirmado isso, não podia ter dito que o Sócrates tinha uma visão para o País”. Pois eu acho o contrário, acho que podia e, independentemente do que o levou a fazê-lo – e isso é outra história… – até lhe ficou bem. Até porque, não sei se estão lembrados, ainda não há muito tempo, naquele seu estilo rançoso e vingativo, Sócrates foi extremamente deselegante com o seu antecessor numa entrevista ao “Expresso”. Desnecessariamente aliás, mas coerente com aquele seu afã de ajustar umas contas que só ele saberá quais são e com aquela enorme sede de révancheque não consegue esconder. Portanto, nem que fosse só por isso, Santana Lopes respondeu à costumeira deselegância do antigo líder socialista com o que se costuma denominar como “bofetada de luva branca”. Mas além do mais, o que Santana afirmou é verdade.
Só para terminar… Se alguém tivesse alguma dúvida sobre se Pedro Santana Lopes era, ou não, candidato nas próximas presidenciais, há uma frase na entrevista que dissipa qualquer dúvida: “Há uma coisa que não gostava nada de ver: haver só um candidato à direita e só um à esquerda. E o meu partido, se tiver dois ex-líderes ou três ex-líderes como candidatos, não deve apoiar nenhum. Seria indigno apoiar um e não outro. Imagine Marcelo Rebelo de Sousa e Durão Barroso. As candidaturas são pessoais“. Será preciso dizer mais alguma coisa?

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