José Paulo Fafe

Parabéns, Mário!

CONHEÇO Mário Soaresainda Mário Soares não era Mário Soares, passe a expressão – que é como quem diz há muito, muito tempo. Dos tempos em que era difícil para muitos dizer “não”, nas alturas em que discordar tinha um preço que nem todos estavam dispostos a pagar. Tenho dele várias recordações, grande parte delas de infância. A mais forte,  ainda que não a mais antiga, tem a ver com a desilusão que senti quando – devia ter eu 7 ou 8 anos… – meus Pais não me deixaram acompanhá-los ao aeroporto para despedir-me dele na noite em que foi deportado para S. Tomé. 
Conheço e lembro-me bem pois do Mário Soares dos outros tempos – o do escritório da baixa, do deportado, o  da CEUD, do  exilado, ou alegria com que desembarcou em Santa Apolónia dois ou três dias após o 25 de Abril.
Nestes últimos 40 anos, estive mais vezes em desacordo que em acordo com ele. Escolhi muitas vezes um campo oposto e durante quase 30 anos não troquei sequer um “bom dia” ou “boa tarde” com quem, na prática, desde miúdo fez parte de uma “família” daquelas que não se circunscreve aos laços de sangue, mas que tem a ver com o nosso quotidiano e o dos nossos Pais. Voltámos-nos a falar há meia-dúzia de anos. Por sua iniciativa, diga-se de passagem – como se nada se tivesse passado e com a naturalidade de quem me conhece desde que nasci.
Hoje, talvez mais do que nunca, o País está dividido no que lhe diz respeito. Mas ele continua igual a si próprio – a não se calar, a defender alto e bom som o que acha como justo e correcto, motivando óbvias paixões e naturais ódios. O que é notável, convenhamos para quem cumpre, como ele, 90 anos. Goste-se muito, pouco ou nada de Mário Soares, quem tem como seus os valores da Democracia e da Liberdade deve-lhe muito. Eu devo, pese muitas vezes, repito, ter estado em desacordo com ele. Eu devo  e acho que Portugal também deve. Parabéns, Mário!

1 comentárioDeixe um comentário

  • Amigo ZPF
    Só tive o “prazer” de falar com ele uma vez.Foi em 1988 no Coliseu de Lisboa quando fui cantar com a “Antologia de la Zarzuela” e ele como Presidente da República foi com a mulher ver-nos.
    Estava lá a minha querida e saudosa(muito)Amália e apresentou-nos.
    Pareceu-me muito simpático e afável.
    É no entanto um personagem muito(íssimo) controverso e nos temas da descolonização e excessos na Presidência foi rei.
    Hoje em dia não ligo ao que diz porque acho que chegou a uma idade que pode dizer e fazer o que lhe apetecer.
    A ida a Évora foi lamentável,claro, e o que disse ainda mais,mas é assim,como dizes……
    Vi Pedro Santana Lopes,que foi convidado pelo mesmo,na sua festa de 90 anos.Achei muito bem!
    Uma vez mais Santana Lopes põe a politiquice baixa de lado e foi dar um abraço a quem o convidou.
    Uma coisa é certa,Soares nunca lhe faria nem mentiria como Sampaio lhe fez!!!

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