José Paulo Fafe

Os cem anos de Jorge Amado


DEVO A meu Pai ter conhecido, entre tanta gente, também Jorge Amado. Lembro-me que a primeira vez que o vi e que com ele troquei duas ou três palavras foi no lobby do Hotel Tivoli, onde acompanhei meu Pai para uma conversa que eles tinham marcado. Terá sido, mais coisa menos coisa, há trinta anos e guardo ainda a imagem de uma espalhafatosa e jovial Beatriz Costa irrompendo por entre os sofás do rés-do-chão daquele hotel e positivamente atirando-se nos braços e colo do escritor. Lembro-me bem daquele dia, do jeito de Amado – baianão, aparentemente mole e mandrião, falando baixinho e com um olhar perscrutador e sempre atento a alguma movimentação feminina mais apelativa nas redondezas. 
Depois disso, tive oportunidade em Salvador de o ver uma ou duas vezes – uma delas onde já funcionava a Casa Jorge Amado, ali a dois passos do Pelourinho. Óbvia conversa de circunstância (“como vai?“, “de férias aqui pela Bahía?“, “dê um abraço em papai, não esqueça“, aquelas coisas…) e pouco mais. Dessa vez, recordo que tinha acabado de ler o seu “Navegação de Cabotagem” um diário que  escreveu e que apesar de ver pouco referido entre as suas obras, acho que é uma “peça” essencial para quem quiser perceber a personagem em si, até mais que o escritor Jorge Amado, nomeadamente o seu percurso político, a “sombra” do Nobel nunca atribuído que o seguiu durante toda vida, etc. E confesso (eu sei que é um bocadinho ridículo, mas pronto…) que amaldiçoei-me a mim mesmo por não ter o livro comigo para lhe pedir uma dedicatória.
Anos mais tarde, no final da década de 90,  viajei propositadamente até Paris para me encontrar com Amado e dirigir-lhe pessoalmente um convite para um doutoramento honoris causa. Combinado tudo telefonicamente com a sua filha Paloma, lá estava eu às três em ponto da tarde à porta do prédio do Marais onde a família Amado passava largas temporadas. Lembro-me que o código da porta (que Paloma tinha-me transmitido pelo telefone) tinha um “xis” – as coisas que nós nos lembramos! Estava eu a digitar o código da porta, quando Zélia Gattai surge à minha frente: “Ôi! Jorge lhe está esperando, mas venha antes ali comigo comprar uns petit-fours, subimos depois…“. E lá fui eu como que “arrastado” por uma frenética Dona Zélia, Marais abaixo na direcção de uma patîsserie onde, pela autêntica festa com que a autora do “Anarquistas graças a Deus” foi alvo por parte das empregadas, percebi que era habituée.
Quando minutos mais tarde subi ao apartamento dos Amado (com Zélia e os petit-fours…), confesso que tive um choque. O Jorge Amado que me esperava era já um Jorge Amado muito debilitado, recostado numa cadeira Corbusier, praticamente cego e com grande dificuldade em fazer as “despesas” da conversa. Paloma era já então uma indispensável “bengala” de seu pai – afectuosa, carinhosa, permanentemente disponível e atenta ao mínimo detalhe que pudesse contribuir para a sua comodidade. No fundo foi com Paloma que acertei a data e todos os outros detalhes da cerimónia e quais os muitos amigos portugueses de Jorge Amado que ele fazia questão que estivessem presente dali a três ou quatro semanas no doutoramento. Quando uma hora depois me despedi da família e ouvi de novo o simpático mas já muito balbuciante “abraço a papai, viu?” da boca do escritor e entrei no elevador, mais do que pensar que ainda não tinha sido dessa que tinha conseguido que Amado me dedicasse um livro (no caso os dois volumes que constituem a primeira edição(!) dos “Subterrâneos da Liberdade” que eu “herdei” e levava na pasta), tive a sensação que, apesar de estar tudo combinado para daí a três ou quatro semanas, era a última vez que ia ver Jorge Amado… Assim foi: muito poucos dias depois, recebi um telefonema de Paloma dizendo-me que o pai tinha sofrido  um acidente vascular-cerebral e que teríamos de cancelar tudo o que estava combinado. Algumas semanas depois, rodeado de inúmeros cuidados médicos, a família conseguiu que ele regressasse a Salvador, à sua casa do Rio Vermelho. Morreu – julgo eu – dois anos depois. Dizem-me que desde o acidente de Paris nunca mais voltou a falar. Quis o destino que eu deva ter sido uma das últimas pessoas que falou com ele…

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  • Jorge Amado em Navegação de cabotagem tem uma definição extraordinária em relação a certos personagens que seria mais ou menos assim;tenho um cemitério privado cheio dessas pessoas

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