José Paulo Fafe

"Os cartazes, segundo Ascenso ": uma peça em dois actos…

PS SEDE

I ACTO

Abre-se o pano…

Um actor (Ascenso). A porta de uma sala, vista de dentro. Ouvem-se passos apressados do lado de fora. A porta abre-se de repente, é fechada com força e ofegante, Ascenso entra pelo gabinete adentro e como que cai sobre a cadeira. Relê os papéis que traz na mão e chama a secretária:
“Ó Belinha, liga aí para aquele gajo da agência de publicidade que eu preciso de falar com ele. Urgente, rápido, mexe-te!”.
Menos de um minuto depois, o telefone (fixo) toca:
“Sim, passa, passa! Estou? Estás porreiro, pá? Fixe! Olha, a malta esteve reunida com o Costa e precisamos de uns cartazes ’tás a ver, como é que eu hei-de explicar-te… É pá, a falar do desemprego, da emigração, dessas merdas todas percebes?”
– (…)
“É pá, mas quero o orçamento primeiro, não me venhas p’aí com exageros, isto ’tá mau…”
– (…)
“Casting? Julgas que isto é a São Caetano ou quê, isto aqui ’tá curto, pá! ‘Tás doido ou quê, isso custa um balúrdio, nem penses, eu arranjo-te as pessoas, ‘peraí que eu já resolvo, não desligues…”
Pega no telemóvel, consulta a agenda do mesmo e aperta o botão de chamar:
“Está lá?” (põe em alta-voz) “Margarida? É o Ascenso, tudo bem? Olha lá, preciso que me ajudes…”
“Diz, diz…” (voz feminina)
“Precisava que me arranjasses aí uns gajos e umas gajas que não se importassem de aparecer nus cartazes que vamos fazer a dar porrada nestes gajos sobre o desemprego, a emigração e essas coisas, percebes?”
“É p’ra já pá, vou-te arranjar aqui uns bacanos da junta que não se importam nada e até vão gostar de aparecer. Manda vir cá o fotógrafo amanhã à tarde, diz-me só por mensagem exactamente o que é que queres, idades, etc, ’tás a ver?!”
“Porreiro Margarida! Fico-te a dever mais esta… Abraço!”
Desliga e pousa o telemóvel na secretária e volta a pegar no outro telefone (fixo):
“Estás a ver, eu não te dizia. O tal de casting já ’tá feito, aqui com o Ascensinho não há espinhas, é sempre a andar…”
– (…)
“É pá, nem penses, a Guida gorda nunca falha. Pensa na malta que precisas e manda-me isso por whatsapp que eu reenvio pá gaja…”
– (…)
“O quê? Queres números? De quê? (…) Do desemprego e dessas coisas todas? É pá, agora é que me lixaste… Onde é que eu vou desanrricar essa merda? Deixa cá ver… Bom, não te preocupes, já peço à malta aqui do programa de governo e já te mando”
– (…)
“Ok, mas despacha-te que eu preciso de colar os cartazes ainda esta semana, senão o Costa fica fodido comigo e com razão…”

II ACTO

Dois dias mais tarde, no mesmo gabinete, com Ascenso sentado à mesa de trabalho.. Batem à porta. Entra actriz (secretária Belinha):
“Ó dr., ligaram da agência a dizer que os cartazes já estão no seu mail…”
“Já?! Ganda pinta, essa malta nunca falha… liga para eles Belinha enquanto abro esta merda”
Ascenso mexe no teclado do computador, olha fixamente para o monitor exclama:
“Muito bom! É assim mesmo, tunga, já os fodemos!”
O telefone fixo toca, atende de pronto:
“Sim, sim, passa, passa… (…) É pá, estão do caraças! Eu sabia que tu eras um génio! Pôrra, os gajos vão cair de cu quando virem isto. Os cartazes são de uma eficácia que não te digo nada, fosga-se!”
– (…)
“Ahahahahahahahahahah, muito bom… Olha, manda fazer as artes finais dessa merda e manda-me isso pronto. Mas hoje, rápido pá! Um abração, meu!”
Ascensão desliga o telefone, pega no telemóvel e digita rapidamente uns quantos números:
“Está lá? Chefe? Estás ocupado, António? Não, não, é rápido… Os cartazes que mandaste fazer sobre o desemprego e essa merda toda já estão prontos para irem para a máquina…”
– (…)
“É pá ó António, nem te digo nada… Do melhor! É um porradão nos gajos que não sei se te digo ou se te conto…”
– (…)
“Mostro ao gajo, claro. Não te preocupes… Se correr bem, terça ou quarta já estão na rua, vais ver…”
– (…)”
“Ok António, ’tá descansado, está tudo checado, tudo ‘come il faut’, aqui o Ascensinho tu sabes como é que é, nunca falha. é sempre a abrir!”
– (…)
“Outro para ti, António! E vamos a isto que falta pouco!”
Ascensão desliga o telemóvel e grita pela secretária:
“Belinha! Ó Belinha!!!”
Belinha entra no gabinete e quando ia começar a dizer alguma coisa, é interrompida por Ascenso:
“Liga para a agência e diz-lhes para entregarem as artes-finais directamente na gráfica. Rápido, não é para hoje, é para ontem, percebeste? O Costa adorou os cartazes…”

Ascenso ajeita-se na cadeira, sorri e pisca o olho a Belinha.

Cai o pano…

FIM.

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