José Paulo Fafe

O “xadrez” de 2015

PELA PRIMEIRA vez desde 1985, quando Francisco Salgado Zenha e Maria de Lourdes Pintasilgo surgiram como outsiders nas eleições presidenciais  daquele ano e baralharam uma disputa que à partida estaria bipolarizada entre Mário Soares e Freitas do Amaral, a “corrida” a Belém que terá lugar daqui a dois anos e meio promete ser disputada não a dois, mas sim a mais – no caso a seis – candidatos. E disputada, diga-se em abono da verdade, de forma bem renhida, com uma inevitável segunda volta a ditar o vencedor. 
É que tanto no PSD como no PS, a melindrosa e difícil escolha dos candidatos oficiais levará a que surjam naturais e significativos focos de descontentamento. Qualquer dos nomes que hoje se falam para corporizar as candidaturas presidenciais nos dois maiores partidos – Marcelo Rebelo de Sousa, Leonor BelezaDurão Barroso, Pedro Santana Lopes e agora até Assunção Esteves, no PSD; e António Costa, Ferro Rodrigues, Jaime Gama ou mesmo de António Guterres e até José Sócrates(!!!) no PS – não são propriamente unânimes ou “pacíficos” dentro das respectivas hostes e vão logicamente criar significativas “bolsas” de contestação, estimulando e abrindo o caminho ao surgimento de candidaturas outsiders no mesmo espaço político. Se por exemplo, a escolha do PSD não recair não será por isso que Santana Lopes  não entrará na “corrida” a Belém – aliás, algo que ele já deu como certo. E à esquerda, será muito difícil convencer Manuel Carvalho da Silva a não ser candidato, tão “empurrado” que tem sido nos últimos meses por significativas franjas do PS (com especial destaque para os “soaristas”), pelo Bloco de Esquerda e até por certos e discretos sectores do PCP que veriam com bastante mais simpatia uma candidatura do antigo líder da CGTP que a de um Francisco Lopes qualquer…
À direita, por outro lado, a estratégia de Paulo Portas a curto e médio-prazo passa inevitavelmente por uma candidatura presidencial, de forma a mostrar o seu verdadeiro “peso político”. O líder do CDS sabe que “vale” mais que o seu partido e o cargo de ministro dos Negócios Estrangeiros que exerce tem-no deixado à margem do natural desgaste que sofreria se ocupasse uma outra pasta qualquer. Ou seja, pela primeira vez desde 1990, o CDS vai ter o seu candidato próprio, ainda que irá, também ele, na prática ser um outsider.
À partida, seis candidatos com scores eleitorais não muito distintos e a adivinhar uma passagem à segunda volta disputada ao milímetro, muito dependente das prestações televisivas (com os debates a terem um papel preponderante…) e dos erros que (não) se podem cometer. Porque se é verdade que os candidatos oficiais do PSD e do PS (sejam eles quais forem) possuem uma base eleitoral ligeiramente superior à dos outros hipotéticos contrincantes (à volta dos 20 por cento), não é menos verdade que qualquer dos outros – o candidato do PCP, Pedro Santana Lopes, Manuel Carvalho da Silva e Paulo Portas nunca arrancarão da “grelha de partida” com um score inferior de 10 por cento cada um. O que garante uma disputa renhida, com um resultado obviamente imprevisível. E também alinhamentos e “realinhamentos” determinantes e certamente “curiosos” para quem passe à segunda volta. Um autêntico jogo de xadrez…

1 comentárioDeixe um comentário

  • Oxalá tenhas razão.
    pelo menos uma disputa com essas nuances daria ao povo a sua verdadeira importância.
    E reduziria os lobbys , as “lojas”, e outros que tais á insignificãncia de onde nunca deveriam ter saido.

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