José Paulo Fafe

O tal voto contra que afinal foi a favor…


QUEM ME conheça (ou leia) sabe que Cavaco Silva decididamente não é alguém por quem nutra grande consideração, em muito  devido a episódios que o mesmo tem protagonizado, especialmente nos últimos anos e que revelaram bem a “massa” de que é feito o actual Presidente da República e do que é (in)capaz para tentar manter-se à tona de água à custa de tudo e de todos. Razão essa mais do que suficiente para sentir-me completamente à-vontade para considerar esta verdadeira histeria colectiva que tomou conta das redes sociais e da blogoesfera a propósito de um alegado voto português contra a libertação de Nelson Mandela como uma autêntica “chachada” – para não lhe chamar outra coisa…
Sejamos claros: o governo português nunca votou contra a libertação de Nelson Mandela. Em 1987, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, existiam duas propostas de resolução. Uma defendia o fim do apartheid, a libertação de Mandela e de todos os presos políticos e a luta armada; a outra apenas o fim do apartheid e a  libertação de Mandela e dos presos políticos. O governo português votou a segunda, a que não defendia a manutenção da luta armada. Mas que, repito, defendia o fim do apartheid e a libertação de Mandela e de todos o presos políticos. É difícil perceber isso?
Hoje dava jeito que não tivesse existido uma segunda proposta de resolução e Portugal tivesse votado contra a que defendia a manutenção da luta armada? Dava. Seria mais um “pecado” a juntar aos muitos que Cavaco inegavelmente possui? Sem qualquer dúvida. Pois é, só que existia uma segunda proposta de resolução e Portugal votou favoravelmente o fim do apartheid e a libertação de Mandela. Para azar dos que se apressaram, ainda o corpo do líder sul-africano estava quente, a enxamear os facebooks da vida com uma notícia, no mínimo, incompleta. Uns por ignorância, outros porque foram na “onda”, mas alguns porque estavam (e estão) de má-fé.
Eu também sou dos que suspiram pelo dia de ver Cavaco pelas costas. Mas tudo tem um limite, caramba!

P.S. – Independentemente disto, concordo com os que criticam a “coreografia desculpabilizante” (citando o embaixador Seixas da Costa) encenada por alguns responsáveis diplomáticos da altura que hoje, se refugiam em cómodas falhas de memória ou em oportunas sacudidelas de água do capote, para tentarem passar ao largo desta polémica…

3 ComentáriosDeixe um comentário

  • Caro Victor
    Não podia ser mas foi:
    “Segundo responsáveis de então por estes votos contraditórios, esta discrepância terá acontecido por a resolução “A” defender a luta armada . Esta justificação, então apresentada, não faz qualquer sentido. A resolução não defende a luta armada. Muito menos a considera, como terá afirmado a declaração de voto portuguesa, “como único meio de corrigir situações de injustiça” . Apenas reafirma a “legitimidade da luta do povo da África do Sul e o seu direito a escolher os meios necessários, incluindo a resistência armada, para conseguir a erradicação do apartheid” .
    A legitimidade do uso das armas para impor a democracia e erradicar um regime ilegítimo não é matéria de discussão e é improvável que Portugal a pusesse em causa. A nossa democracia foi imposta pelo uso das armas e apoiámos, no período logo a seguir, o direito dos timorenses a usarem a resistência armada.
    O que corresponde, aliás, ao que se pode ler na nossa Constituição, relativa às relações internacionais, onde Portugal reconhece o direito dos povos “à insurreição contra todas as formas de opressão………………………..Mas para provar a falta de validade deste argumento não precisamos de tanto debate. Basta olhar para as restantes votações desse mesmo dia. Portugal não votou apenas contra a resolução “A”, mas também contra as resoluções “C” (que apelava a vários países, incluindo os EUA e o Reino Unido, a apoiarem as sanções) e “D” (que apelava ao fim da colaboração militar entre Israel e o regime sul-africano). E absteve-se nas resoluções “B” (que reafirmava e especificava sanções à África do Sul), “E” (que solicitava financiamento para o Comité Especial Contra o Apartheid) e “F” (que reforçava as medidas para o embargo de petróleo ao regime sul-africano). Das sete resoluções votadas nesse dia, Portugal apenas aprovou uma. E nenhuma das outras cinco resoluções que não contaram com o seu apoio fazia qualquer referência a qualquer tipo de luta armada.”

    Cavaco é um ser que muito poucos conhecem……..Muito poucos….

    Ler mais: http://expresso.sapo.pt/ainda-os-votos-de-portugal-na-onu=f845011#ixzz2n5KIxZbB

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