José Paulo Fafe

O pândego

GOSTE-SE OU não de José António Saraiva, convenhamos que o arquitecto há muito convertido aos jornais é o que se chama em bom e escorreito português “um verdadeiro pândego”. Conheço-o há anos (trinta, mais coisa menos coisa), já trabalhei com ele, não sou nem nunca fui seu amigo, já me irritei suficientemente com ele e também por sua causa, mas não me custa nada reconhecer que ele é, no bom sentido do termo, um “grande cromo”, daqueles que normalmente são tidos por ser “os mais difíceis da colecção”. Confesso que o arquitecto Saraiva é para mim, em sextas-feiras mais aborrecidas ou complicadas, um verdadeiro lenitivo, especialmente aquelas suas crónicas na “Tabu” e onde semanalmente perora sobre os temas mais inimagináveis, surripiando-me quase sempre uma simpática e até cúmplice gargalhada. E quando o assunto me interessa, chego mesmo a ler aquele seu super-lógico raciocínio quase aritmético no primeiro caderno do “Sol” e onde compassa as frases como que sublinhando um pensamento que, por muito que não pareça, é o expoente máximo do “politicamente correcto”. E a minha “atracção” (salvo seja!) pelo arquitecto vai mesmo ao ponto de ainda o outro dia dar por mim especado à frente do televisor a assistir deliciado e atentamente às suas alucinantes respostas a Manuel Luís Goucha numa entrevista de quase uma hora e onde ele chegou a dissertar sobre a utilidade de uma mesa para o homem e para… o cão.
Vem tudo isto a propósito do seu “Política à sério” de hoje e onde Saraiva aborda o tema dos políticos que são simultaneamente comentadores nas TV’s e nos jornais. E nesse tal raciocínio de contornos aritméticos, o director do “Sol” lá nos vai levando quatro colunas fora até dar-nos a sua opinião final e que no fundo se resume nisto: os políticos comentadores ou são políticos ou são comentadores. Que é como quem diz: ou comentam ou fazem política, as duas coisas é que não! Assim, sem mais nem menos… O curioso é que da meia-dúzia de exemplos que ele dá e com que ilustra o seu texto, pelo menos dois deles são ou foram seus colaboradores do “Sol”, de que ele é director – Marcelo Rebelo de Sousa e Pedro Santana Lopes, já para não falar de Miguel Portas. É caso para dizer: se não existisse, tinha que ser inventado, este José António Saraiva!

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