José Paulo Fafe

O meu amigo Zé Dirceu



ANTES DE mais e para que não existam dúvidas, deixem-me deixar claro que sou amigo de José Dirceu. Quando o conheci, há cinco ou seis anos, já o famoso “mensalão” o tinha afastado da ribalta política e ele era nitidamente o “bode expiatório” de uma situação e de um poder que, por muita popularidade que exibisse, precisava – até por isso mesmo – de ter a sua bête noire. Confesso que a primeira (longa) conversa que mantive com Zé Dirceu e onde Cuba (onde ambos tínhamos vivido praticamente nos mesmos anos) foi tema para horas que se prolongaram pela madrugada dentro, foi suficiente para ser “seduzido” por uma figura que percebi fascinante e que alia a frieza do guerrilheiro, o charme do bon vivant e a fina argúcia do político florentino. 
Se é verdade que a direita rejubilou quando Dirceu “caiu” politicamente, não é menos verdade também que muito possivelmente alguns dos seus camaradas não tenham aberto algumas garrafas de champanhe. Não fosse o “mensalão”, não fosse algum comportamento esquivo do próprio Lula da Silva, não tenho a menor dúvida que hoje, no lugar de Dilma Rousseff, estaria inevitavelmente José Dirceu. Por lógica mas também por direito próprio. Foi Dirceu quem soube e conseguiu homogeneizar o PT, conferindo-lhe uma respeitabilidade que lhe permitiu introduzi-lo no sistema político brasileiro, criando “pontes” com a sociedade civil, nomeadamente com os grandes empresários; foi ele quem “entregou” a campanha presidencial de Lula a Duda Mendonça com o sucesso que todos conhecemos; foi até Dirceu (o antigo guerrilheiro treinado em Cuba…) quem teve a arte e o engenho de abrir os canais certos com os Estados Unidos que permitiram tranquilizar Washington relativamente a uma hipotética vitória do seu companheiro Lula. Resumindo: nem o PT nem Lula seriam o que são ou que o foram sem Dirceu… 
E essas coisas, todos sabemos, têm um preço a pagar – no caso de Zé Dirceu, bem alto… Não vou aqui entrar no “dizes tu, digo eu” sobre se ele fez isto ou não fez aquilo. Para mim, pelo que me foi dado ver da quase totalidade das sessões do Supremo Tribunal Federal  do processo do “mensalão” que tive oportunidade de assistir em directo pela televisão no Brasil, não descortinei uma única prova concreta contra aquele que era, à altura dos acontecimentos,  ministro chefe da Casa Civil – a versão brasileira do cargo de primeiro-ministro e que tinha logicamente a seu cargo a negociação e articulação política com os inúmeros partidos que constituíam a ampla maioria que suportou tanto os mandatos de Lula como este de Dilma. E isso chega-me para continuar a ter pelo Zé a admiração e a amizade que me habituei, nestes últimos anos, a ter por ele. Abraço, compañero!

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  • Não o conheço nem a si muito menos a esse José Dirceu, mas gabo-lhe a coragem de vir a terreiro defendelo quando toda a gente o aponta como o grande responsavel pelo maior escandalo de corrupção politica que existiu no Brasil. Ao ler o seu artigo pecebi que as coisas afinal não são tao faceis como parecem ser a primeira vista e que ele pode ter sido vitima de uma armadilha dentro do proprio partido. Entendi bem? Ou entaõ essa sua tese não é que uma desculpa para vir defender um amigo?

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