José Paulo Fafe

O meu 25 de Abril

LEMBRO-ME, COMO se fosse hoje daquela manhã em que, para minha surpresa e ao invés do que era normal, o meu Pai me acordou dizendo-me qualquer coisa como isto: “Levanta-te que há um golpe de estado e vai ter lá acima…”.
Lembro-me da minha Mãe emocionada ao telefone com um amigo de família, o espanhol Enrique Ruíz Garcia, que ligava desde Madrid: “Fueron cuarenta y ocho años Enrique – mi edad, cuarenta y ocho años, imaginate Enrique…” – a frase com que, uma semana mais tarde, o mesmo Ruiz Garcia abria o artigo que escrevia, salvo erro, nos “Cuadernos para el Dialogo” (ou seria na “Triunfo”?), citando “su amiga Maria Virginia”.
Lembro-me daquela serenidade aparente de meu Pai, sempre metódico, a colocar as balas no seu “Taurus” (“nunca se sabe o que isto pode dar”) e a distribuir tarefas: “Zé Paulo, avisa os teus colegas para não irem para a escola”; “Maria Virginia, vê se temos comida suficiente e para quantos dias…”; “Zézinha, liga para fulano e para beltrano a avisar…”.
Lembro-me da Graça Carvalho Fernandes e do Jorge Trigo de Sousa entrarem portas dentro com um pequeno televisor (o primeiro que alguma vez entrou em nossa casa) e que rapidamente sintonizado no único dos dois canais de televisão que funcionava naquele dia, permitiu-nos, juntamente com as emissões de rádio, acompanhar o que se passava em Lisboa.
Lembro-me de, a meio da tarde e aproveitando a natural confusão do “entra e sai” dos inúmeros amigos de casa, dos milhentos telefonemas que levavam o meu Pai a estar agarrado ao telefone, conseguir finalmente escapulir-me  e ir ter com o meu amigo Pedro Pimenta. Acho que chegámos a pintalgar num muro na Avenida de Sintra um “Viva a Liberdade!” ou uma coisa do género, assim numa espécie de nossa “primeira vez” e que, contada no regresso a casa, me deu direito a levar um raspanete do meu Pai para quem a situação ainda estava “muito confusa” e que o facto de sermos vizinhos do almirante Henrique Tenreiro preocupava – isto “no caso das coisas darem para o torto“.
Lembro-me de, ao fim da tarde, a Carol Quina e o António Silva (juntos até hoje!) aparecerem lá em casa, vindos de Lisboa, a contar as últimas que, sofregamente, todos “bebemos”. O António que, ainda há dias, me contava ao telefone desde Paris, que nunca mais esqueceu uma frase dita pelo meu Pai, já a noite ia longa: “Se os presos não forem todos libertados, eu não acredito nisto”.
Lembro-me que, daí a umas horas, fomos dos primeiros a chegar ao cruzamento que dava acesso ao portão da prisão de Caxias, de onde só arredámos pé muitas horas depois, já a noite ia longa e quando (lembro-me tão bem…) vimos o sempre elegante Hermínio da Palma Inácio sair à frente de um grupo de presos políticos finalmente em liberdade.
Lembro-me então de voltarmos a casa, em Cascais, já no dia 27. Do meu Pai pedir à minha Mãe para lhe fazer “um chá e uma torrada”, de ir-me deitar e de ter percebido que existem dias que podem ter muito mais que 24 horas e serem recordados, minuto a minuto, quarenta anos depois…

Para terminar: já escrevi aqui e já o repeti mil vezes que o dia 25 de Abril foi o dia mais feliz da minha vida até hoje. Que me desculpem os meus quatro filhos, cujos nascimentos obviamente são datas que nunca esquecerei, mas aquele dia do ano de 1974 teve um significado único e incomparável para mim – um miúdo à beira de fazer 13 anos e que sempre convivera num ambiente de clara e profunda oposição ao regime que durava há 48 anos. Um miúdo que, quarenta anos depois, lembra-se tantas, mas tantas vezes daquela frase dita ao telefone pela sua Mãe – às primeiras horas do dia 25 de Abril: “Fueron cuarenta y ocho años En
rique – mi edad, cuarenta y ocho años, imaginate Enrique
”.

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