José Paulo Fafe

O idiota útil

Foto: Jornal de Notícias

O ACTUAL presidente da Câmara do Porto é daquelas pessoas que não merece que se perca muito tempo com ele. Conheço suficientemente bem Rui Moreira para saber que se trata de um idiota, sem uma ideia alinhada na cabeça e que, ao longo dos anos, procurou sofregamente algum palco que lhe permitisse satisfazer uma ânsia de protagonismo que nem a ascendência nem a sua parca inteligência lhe garantiam à partida. Não é de hoje, a opinião que formei dele, nem tão-pouco é a primeira ou segunda vez que escrevo com todas as letras a impressão que possuo sobre alguém que, confesso, contra as minhas expectativas,  conseguiu ganhar as eleições para a Câmara do Porto, depois de andar anos a fio à cata de um lugarzito nem que fosse de subsecretário de Estado do governo que calhasse.

Conheço suficientemente Rui Moreira para saber que a sua pretensa coragem acaba quando, por exemplo, lhe sequestram o canídeo para que não continue a dar “bitaites” sobre o seu clube ou quando lhe abrem bem os olhos. Foi assim no futebol, quando lhe passou por aquela tola cabeça ser uma peça-chave na sucessão de Jorge Nuno Pinto da Costa, foi assim em outras situações que não são para aqui chamadas e quando, ao melhor estilo siciliano, teve de recorrer aos serviços de terceiros para tentar fazer vingar os seus pontos de vista em questões de índole doméstica a mais de 300 quilómetros de distância. Por isso, não sendo munícipe do Porto (porque aí a minha reacção seria outra…), quando vejo e oiço um impante Moreira a falar grosso e com pose de pretenso estadista, só me resta rir à gargalhada. Foi o que me aconteceu ontem à noite, quando o vi refastelado no “trono” de autarca-mor da Invicta, praticamente incitando a uma marcha sobre o Sul, enquanto amaneiradamente compunha os óculos e tentava pôr um ar incompativelmente arguto e inteligente. Mas, verdade seja dita, que foi nesse preciso momento que percebi também que, mais que as famosas três ou quatro rotas suprimidas pela TAP, o abominável perigo galego ou a disparatada teoria da conspiração que envolve a construção de uma nova ponte, um outro aeroporto e uma futura Expo em Lisboa, o grande problema de Moreira é estar cada dia mais deslumbrado consigo próprio e certamente à mercê de quem o vai, à falta de melhor, adulando e fazendo-o crer ser um génio da política. E o problema deste tipo de idiotas é que muito dificilmente são imunes ao elogio, ao afago, à vulgar e popularmente chamada “graxa”…

Ontem à noite percebi claramente que alguma dessas luminária, das que normalmente rodeiam com facilidade os fracos de espírito, deve ter aconselhado Moreira a mudar ligeiramente a agulha, agora que o PS, seu aliado objectivo durante os últimos dois anos e com que celebrou publicamente um”acordo de governação” poucos meses depois de ter sido eleito com o apoio do CDS, é poder. Aposto singelo contra dobrado que alguém lhe disse que o que “rendia” era ir progressivamente afastando-se dos socialistas, traçando um caminho que não fizesse depender destes a sua reeleição em 2017, e simultaneamente neutralizando alguma hipotética candidatura laranja. E, bem mandado, foi o que Moreira fez: aproveitou a ida para o governo do seu mais directo colaborador para substitui-lo por alguém da maior confiança pessoal e política de Durão Barroso, fez uma discreta aproximação ao outro lado do rio, onde um porta-voz, agora aparentemente caído em desgraça, já deu mostras de não se importar de ser seu “número dois” numa previsível reeleição, colou-se à eleição de Marcelo Rebelo de Sousa e finalmente um simples relançamento estratégico e operacional da TAP foi o mote que precisava para investir desabridamente contra o governo em nome de uma bacoca e desajustada ira pretensamente regionalista.

É isto, só isto, que move Rui Moreira. Não é o Porto, não é Pedras Rubras, como não é qualquer ridícula e inexistente subserviência aérea do Norte relativamente a Lisboa – é, isso sim, o seu timing com vista à reeleição em 2017 e a consequente sobrevivência dos  seus inseparáveis sócios, dos conselheiros acácios que o rodeiam e dos amigos que, aliás como sempre fizeram, o têm ali à mão como o “idiota útil” que ele sempre foi.

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