José Paulo Fafe

O 25 de Abril… by Ruy Castro


JÁ AQUI falei e escrevi várias vezes sobre Ruy Castro, uma “companhia” quase diária, cujas crónicas na “Folha de S. Paulo”, graças à Internet, não dispenso  – esteja eu onde estiver. Há uns anos, tinha ele 26, a chamada “Revolução dos Cravos” apanhou-o em Lisboa, onde era correspondente da hoje desaparecida revista “Manchete”. Hoje, quase quatro décadas depois, na cada vez mais indispensável segunda página da “Folha”, Ruy Castro escolheu essa data como tema da sua crónica:
RIO DE JANEIRO – Serão 40 anos no dia 25. Minha amiga Norma Taulois me telefonou às sete da manhã: “Os tanques estão nas ruas!”, ela disse. Liguei o rádio, e a única estação no ar, a RTP, só tocava marchas militares – uma delas, “Pompa e Circunstância”, do inglês Edward Elgar (1857-1934). Saí para trabalhar. Ruas vazias, tudo fechado. Desci do táxi e alguém me espetou um cravo vermelho na lapela.
De repente, vi-me em meio a uma multidão rumo à avenida da Liberdade. Não era uma metáfora. Naquela manhã de abril de 1974, Portugal se livrava de uma ditadura de 48 anos. Depois de meses de conjura, jovens capitães e majores, à frente de suas tropas, marcharam sobre Lisboa e, em poucas horas, tomaram os quartéis, rádios, ministérios, o aeroporto e os palácios do governo.
Não fosse pela resistência da polícia política, que matou quatro manifestantes na frente de sua sede, teria sido exatamente isto: uma revolução com pompa e circunstância -“de modo requintado e de acordo com a etiqueta”, segundo o Dicionário da Academia de Ciências de Lisboa. Jovens e velhos espetavam cravos nas baionetas dos soldados que os libertavam.
Os 40 anos da Revolução dos Cravos merecem todas as comemorações, inclusive entre nós. Mal posso esperar para ler os relatos de colegas brasileiros que “estavam lá” no dia 25 ou chegaram “no dia seguinte”. E será curioso, porque não me lembro de nenhum deles naquele dia. Nem nos dias seguintes, porque, com as fronteiras fechadas, ninguém entrou em Portugal até o dia 28. Nem mesmo o líder socialista Mario Soares e o comunista Alvaro Cunhal, vindos respectivamente de Paris e Moscou.
Eu estava lá havia um ano e meio, a serviço de uma revista. Deixara para trás uma ditadura – a de Médici – e nunca poderia adivinhar que logo escutaria um povo dando vivas à liberdade em português“.

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