José Paulo Fafe

Mário Soares



(…) Tenha, pois, cuidado com o que lhe possa acontecer. Com o povo desesperado e, em grande parte, na miséria corre imensos riscos.

Mário Soares sobre Pedro Passos Coelho
QUER QUEIRAM quer não, Mário Soares é a principal referência do nosso regime. É indiscutivelmente um dos  (senão o principal…) “pais” desta nossa III República – obviamente com todas as responsabilidades que isso implica. Foi um corajoso resistente ao Estado Novo; soube enfrentar na rua e nos bastidores as tentações totalitárias de quem, no pós-25 de Abril, quis subverter a construção da democracia; integrou e afirmou o nosso País no espaço a que sempre pertenceu e ao qual virou costas durante décadas; liderou governos que, embora protagonizando e impondo impopulares e rigorosas mediadas de austeridade, contribuíram decisivamente para uma estabilidade económica que era essencial à consolidação do regime democrático; exerceu uma magistratura enquanto Presidente da República que, concorde-se ou não com o estilo, conferiu ao cargo um peso e uma intervenção que é fundamental na estabilidade das instituições; e, com quase 90 anos, é alguém a quem o País se habituou a escutar e respeitar as suas opiniões e experiência.
Quem me conhece e à minha relação (que tem a minha idade…) com ele, sabe que sou insuspeito para afirmar que Mário Soares é indiscutivelmente o maior estadista português das últimas décadas. Exactamente por isso mesmo, não entendo como é que alguém, com  o sentido de Estado que Soares obviamente possui e tendo desempenhado as funções que desempenhou ao longo das últimas quatro décadas (ministro dos Negócios Estrangeiros, primeiro-ministro por duas ou três vezes, conselheiro de Estado, Presidente da República durante dois mandatos, além dos cargos internacionais e prestígio que detém por esse mundo fora) possa escrever o que acabei de ler na sua coluna semanal no “Diário de Notícias” sobre Pedro Passos Coelho e alegados “riscos” que eventualmente o primeiro-ministro possa correr. Especialmente vindo de quem, como Soares, foi insultado, vaiado e até agredido (lembram-se?) por pura e simplesmente protagonizar políticas e posturas que, ainda que impopulares, ele na altura sabia ser imprescindíveis ao País. 
Aliás, Portugal deve-lhe esse seu sacrifício e essa sua coragem…

5 ComentáriosDeixe um comentário

  • A “agressão” a Mário Soares, na Marinha Grande, deu-lhe a vitória. O povo não gosta deste tipo de agressões.
    Estará MS a estimular a “agressão”? Não acredito mas que foi infeliz no seu artigo, foi.

  • Obrigado JPF, de facto é lamentavel o que vários membros do grupo do Lar de Idosos do PS deita cá para fora. As declarações de idoneidade feitas por Almeida Santos, Soares e Sampaio sobre os arguidos em vários processos jurídicos envolvidos, deixam supor que este grupo está de facto senil.
    Ouvi de facto estas declarações só que não consigo entender qual o interesse, será as contas estão baralhadas lá para os lados do Rato, afinal querem Seguro ou Costa?
    Ou será que Seguro rasga o entendimento com a Troika, faz uma aliança à esquerda não sabem muito bem com quem, e vem o Costa (com a fatiota de Obama português) com o seu ar de não me comprometa e finge que resolve tudo, e sai mais uma vez vitimado…(continua nos próximos capítulos)

  • Estimado José Paulo Fafe,
    Acredite que estou mais vezes em desacordo do que em acordo consigo no que respeita ao seu olhar sobre a política nacional. Mas confesso-lhe que este seu post sobre o dr. Mário Soares é de uma lucidez e clarividência geniais e traduzem o que de facto eu penso sobre suas as desastradas declarações. Aliás, o governo devia ter respondido exactamente nesses termos ao ex-Presidente – de forma elegante, inteligente e determinada.
    Cumprimentos,
    Pinheiro Torres

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