José Paulo Fafe

Lembram-se?

HÁ UNS anos, o meu amigo Rui Gomes da Silva, então ministro do governo de Pedro Santana Lopes, veio publicamente invocar a figura do “contraditório” – isto na sequência de um azedo comentário televisivo do sempre surpreendente Marcelo Rebelo de Sousa sobre o último governo laranja. Devem certamente estar lembrados que ia caindo o Carmo e a Trindade, chegando mesmo ao ridículo do então Presidente da República ter chamado o próprio Marcelo a Belém, num gesto de uma abusiva e bacoca solidariedade pública. Só faltou mesmo quem pedisse a condução ao “paredon” de um então certamente atónito Rui Gomes da Silva que – aposto singelo contra dobrado – nunca deverá ter alguma vez imaginado que a lógica exigência do “direito ao contraditório” pudesse suscitar tamanha onda de protestos…
Passaram uns anos (não muitos, ainda por cima!) e agora a figura do já famigerado “contraditório” é usada a torto e a direito, especialmente por muitos daqueles que a contestaram e ridicularizaram. Poucos meses depois e já com Cavaco e Sócrates a “reinarem” por estas bandas, a RTP convidou o socialista António Vitorino para protagonizar um programa que, à segunda-feira e na opinião dos responsáveis da televisão pública, “exerceria o contraditório” relativamente às predicas dominicais do irrequieto prof. Marcelo; a RDP estreou um programa semanal de debate político intitulado “Contraditório”; e no léxico parlamentar (e não só) a expressão foi adoptada sofregamente por tudo o que é “bicho careta” na nossa cena política. Como se isto não chegasse, agora foi a vez do solícito, obediente e temeroso director do “Jornal de Notícias” desculpar-se com a “inexistência do contraditório” para recusar um artigo da autoria do seu colunista Mário Crespo – por sinal bem incómodo para o irado e desbocado primeiro-ministro que ainda nos vai governando. Como diz o outro: “Volta Rui que estás perdoado!“…

3 ComentáriosDeixe um comentário

  • Amigo Ze Paulo,
    Isso era no tempo da Democracia e de Senhores como Rui Gomes da Silva.
    Agora esta Ditadura “avenezuelada” com aquele bando de marujos a bailar ao som da surdez de Belem, tudo pode, tudo acontece e nada muda…Se fosse aqui em terras de sua majestade, ja estavam na cadeia!

  • Há contraditórios bons e contraditórios maus!
    Mas, como diria Kant, “… imoralidade é desejar para os outros algo diferente do que queremos para nós”.
    E isso é o que mais se vai vendo hoje na poliítica à portuguesa.
    A começar no meu PSD.

  • Andaram com o José Socrates ao colo, mesmo aqueles que partilham a trincheira connosco não mediram as consequências dos seus actos e palavras, e como ele gostava de ser levado ao colo porque em ombros só sairá no caixão (político obviamente).
    Não podemos esquecer da boa e má moeda vê-se!, e lembrar o comportamento de Marcelo chamado pelo Sampaio!
    Ninguém quer recordar as palavras de Socrates em 2004 sobre a alegada pressão, e de todos aqueles que vieram dizer que a liberdade de expressão estava em causa. Valia a pena procurar as palavras de Miguel Sousa Tavares e fazê-lo emgolir o sapo.

    Só existe um partido o P$ ou P€

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *