José Paulo Fafe

Kumba Ialá


ACABEI DE saber que morreu Kumba Ialá, o controverso ex-presidente guineense e um dos grandes responsáveis pelo estado caótico a que chegou a Guiné-Bissau. Quando li a notícia da sua morte, vieram-me à mente vários episódios protagonizados por esta controversa e inimaginável figura que, sendo Presidente da República, abastecia pessoalmente os porta-bagagens da sua frota presidencial de Mercedes de grades e grades de cerveja no mercado de Bissau ou pura e simplesmente, sem que lhe caissem os parentes na lama, mandava parar a caravana em que seguia para, à frente de toda a gente e em plena via pública, fazer as suas – chamemos-lhe assim… – “necessidades”. Ou mesmo aquela noite em que um golpe de estado o derrubou e, dada a monumental “carraspana” com que se encontrava, só deu por isso (e por estar detido) na tarde do dia seguinte… Mas ao ler o post que o embaixador Francisco Seixas da Costa publicou no seu blogue e que relata uma hilariante passagem de Kumba pelas Nações Unidas, acho que, depois disso, já não é preciso contar (ou dizer) mais nada. A palavra pois, com a devida vénia, a Seixas da Costa:
(…) Um dia de 2001, na ONU, em Nova Iorque, estive presente, em representação de Portugal, numa reunião do grupo “amigos da Guiné-Bissau”. O novo presidente guineense fora convidado a fazer uma apresentação sobre a situação no seu atribulado país, com vista a mobilizar a boa vontade e a ajuda da comunidade internacional. O tempo que lhe fora destinado para intervir foi largamente excedido, mas o seu discurso tinha coerência e demonstrava uma determinação no sentido da correção de algumas políticas, tudo envolvido num registo muito típico, desde logo marcado pelo barrete de lã vermelha que nunca o abandonava.
Com o meu colega brasileiro, Gelson Fonseca (atual cônsul-geral do seu país no Porto), e para potenciar o efeito positivo da reunião, combinei duas intervenções sucessivas de apoio à declaração do presidente, procurando dar ênfase à sua expressiva vontade de mudança. Outros embaixadores, em especial de países “do Sul”, seguiram uma linha idêntica e, a meio da reunião, o ambiente podia considerar-se globalmente positivo, quiçá apenas com as reticências face à sustentabilidade das políticas que algumas lideranças africanas, em especial oriundas de países mais frágeis, nunca deixam de suscitar.
O delegado de um país do Norte da Europa abordou entretanto a sensível questão da corrupção. Notei que Kumba Ialá ficou muito atento à intervenção e, no imediato, pediu para responder. Com ênfase, marcou a sua firme determinação em pôr fim ao flagelo da corrupção no seu país. E, a certo passo, agarrando firmemente o ombro da ministra dos Negócios Estrangeiros, que estava a seu lado, disse, bem alto:
– Vou ser muito duro, podem acreditar. Por exemplo: aqui a senhora ministra. Se eu vier a descobrir que ela rouba, que é corrupta, podia mandar matá-la. Mas não, não a vou mandar matar! Mas vai levar tanta porrada, tanta pancada, que nunca mais vai querer roubar. Mas ele não rouba, não! – e dizia isto, contemporizador, abanando a constrangida ministra, que afivelava um sorriso que quero crer que seria amarelo…
Kumba Ialá falava em português e, na sala, para além do embaixador brasileiro e de mim próprio, que tínhamos olhado um para o outro algo preocupados com o facto do presidente poder ter “estragado tudo” com estas palavras, creio que só a intérprete que ia traduzindo as intervenções do presidente se inteirara do teor da comprometedora declaração. Contudo, a coreografia e o tom de Ialá tinham criado uma particular curiosidade nas restantes pessoas à roda da mesa, que aguardavam a tradução.
A intérprete, consciente da delicadeza do momento, olhou para mim, em busca de “ajuda” para superar o problema. Fiz-lhe um gesto discreto, a pretender significar a necessidade de “adocicar” fortemente as embaraçantes frases do presidente. E foi então que assisti a uma magnífica demonstração de profissionalismo, com a senhora a dizer algo como: “Mr. President wants to emphasize that corruption, in his country, is not punished with death penalty. Nevertheless, under his leadership strong mesures will be taken against those who may incur in such practices, even if they are members of his own government”.
Olhei para o meu colega brasileiro e demos um suspiro de alívio. No final, dei uma palavra de parabéns (e gratidão) à intérprete. Tinha-nos ajudado a salvar a sessão. Uhf!“. Genial…

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