José Paulo Fafe

Já chega!



DE VEZ em quando, o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros – vá lá saber-se porquê – tem uma estranha necessidade de falar alto e dar uns murros na mesa. Dizem-me que não é de hoje, que já nos tempos do “Independente” também lhe davam esses achaques e essas “furiazinhas”, quase sempre inconsequentes e também quase sempre tendo como alvo quem, por esta ou outra razão, não podia (ou devia) responder-lhe à letra. Feitios…
Pouco me importa que Paulo Portas se irrite com a secretária porque a caneta está sem tinta, berre com o adjunto porque o interrompeu, ponha na rua do gabinete o prestável segundo ou terceiro-secretário de embaixada pelo ofício estar mal escrito ou amue com o motorista porque este não ligou a sirene que certamente tanto lhe apraz. Se ele bate as portas com força ou atira o telemóvel quando a vida não lhe corre bem tão-pouco me interessa por aí além, que é como quem diz, é para o lado onde durmo melhor. A coisa muda de figura quando o que está em jogo é o interesse nacional… Aí – passe a expressão – “alto e pára o baile”!
Vem isto a propósito da forma altaneira, grosseira e arrogante como o responsável máximo da diplomacia portuguesa tratou as novas autoridades da Guiné-Bissau (ao ponto de ameaçá-las com uma força militar de intervenção!), ao arrepio do que seria histórica e logicamente aceitável, “cortando” à partida todo e qualquer diálogo que devia e teria de existir entre Lisboa e Bissau. Sobranceiro, a reboque dos interesses hegemónicos que Angola possui naquela região de África, Portas “hipotecou” quase quarenta anos de um relacionamento nem sempre fácil, mas sempre “costurado” com algum talento e habilidade por muitos governos que, independentemente das suas cores políticas, conseguiram estabelecer e manter (mesmo em período bem mais difíceis e complicados que os que vive actualmente a Guiné-BIssau…) pontes e compromissos que permitiram ao nosso País manter uma significativa presença a todos os níveis naquelas paragens. Ao longo destes anos, Portugal conseguiu “travar” a ofensiva francesa para absorver aquele que é um verdadeiro “enclave lusófono” no chamado “espaço da francofonia” naquela região, manter e promover alguns investimentos significativos para a economia local e ser o parceiro privilegiado a nível político dos guineenses. E já agora, recorde-se que foi exactamente na Guiné-Bissau onde se travou porventura o mais traumático (para ambos os lados) conflito militar entre Portugal, enquanto potência colonizadora, e os movimentos de libertações das antigas colónias…
A obstinação de Portas em manter a posição estapafúrdia de não reconhecer o novo poder em Bissau, quando países como, por exemplo, os Estados Unidos, a Rússia e a França (claro…) já o fizeram é claramente nociva ao interesse nacional. Mais: num momento em que – garantem-me – o próprio governo de Luanda prepara-se para nomear um novo embaixador na capital guineense, Portugal insiste em manter uma posição que só reforça as teses de quem (e não são poucos…), no seio do novo governo, defende a saída imediata da Guiné-Bissau da CPLP e a adesão ao “espaço francófono”. Já para não falar das licenças de pesca que estão a meses de caducar e cuja renegociação urge, ou da segurança dos quase 6 mil portugueses (portugueses mesmo, não só de passaporte…) que lá estão radicados.
Como alguém me dizia ao telefone, desde Bissau, há poucos dias “em apenas dois meses, Paulo Portas conseguiu delapidar o que foi construído em quase quarenta anos de  relações entre Portugal e a Guiné…“. Será que ainda se irá a tempo de remediar a situação? A resposta cabe, de algum modo, a Pedro Passos Coelho, certamente mais preocupado com o interesse nacional que o seu “número três”, esse sempre mais atreito e afoito a colocar-se em bicos de pés e exibir e alardear um poder(zinho) que – coitado… – acaba onde começam os interesses de quem dele (Portas) põe e dispõe! E já agora, alguém tem de explicar ao actual inquilino do palácio das Necessidades que ter boas relações com as antigas colónias não é apenas andar de braço dado e mão-estendida em Luanda, mas também dar a mão, por exemplo, em Bissau… 

6 ComentáriosDeixe um comentário

  • “Por que razão Portugal está disposto a prescindir de uma relação histórica e secular com a Guiné-Bissau, pois a sua atitude nisso se reflecte?
    Será que é por causa do jogo do tudo ou nada em função das negociatas que Carlos Gomes Júnior celebrou com elites portuguesas e angolanas, vendendo recursos da Guiné-Bissau de forma camuflada e que agora, constituem prejuízo de milhões para os “compradores” sem registo de propriedade…?!
    Ou será por “graxa” a Angola?”

  • Senhor Dr.
    Quando comecei a ler o seu comentário pensei que falava de outra pessoa tão sua conhecida.
    Não entendo porque está surpreendido. Eles são todos iguais.
    Leitão-PSD

  • O Dr. Paulo Portas está a tornar-se num “problema” para o primeiro-ministro. As suas ambições presidenciais e a forma como precisa de criar condições para encetar esse caminho, levam-no a tomar, em nome do governo português, posições contrárias ao interesse nacional e ao sabor dos seus interesses pessoais. Mais uma vez, o Dr. Portas revela o seu verdadeiro lado…

  • Dr. Fafe (filho) – já viu a sorte que tem em não ser diplomata? Apanhava com o Dr. Portas e hoje provavelmente era embaixador~merceeiro! Não seria em Bissau, mas…

  • Como dizia alguém, em tempos, no defunto “Pedro V”, “quando estão com comichão na borbulha”…lá se vai o interesse nacional…

  • Caro Senhor,
    Basta estar atento às viagens do ministro Portas a Luanda, curiosamente célere e prontamente divulgadas no site do seu partido, aos temas que são divulgados como tendo feito parte da agenda do encontro mantido com o presidente Zé Eduardo dos Santos para percebermos ao ponto a que chegou a vassalagem de quem ainda há pouco tempo chamava de “assassino” a quem hoje lhe dá ordens e faz dele moço de recados. Uma vergonha e uma situação a que Passos Coelho tem urgentemente pôr cobro. Afinal, Portas é ministro da República Portuguesa ou um vulgar estafeta do Futungo de Belas?

    Mário Domingos
    Leiria

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