José Paulo Fafe

"Envelhecer", by Vasco Pulido Valente


TEM TANTO de genial como de chato. Cáustico, severo, brutal muitas vezes, Vasco Pulido Valente tem a extraordinária capacidade de pensar, coisa rara neste País e nos tempos que correm. Há quem goste muito dele e quem o deteste, mas poucos são os que não subscrevem grande parte do que ele escreve e raros os indiferentes ao que ele defende. Com 73 anos, a Pulido Valente naturalmente custa-lhe envelhecer neste país de Ronaldos, gourmands da treta, do jornalismo de merda, dos lugares comuns, do primado da economia, do chico espertismo. O que ele não sabe é que não é preciso ter mais de 70 anos para nos sentirmos assim, basta apenas lembrarmos-nos do “outro” País onde nascemos e vivemos muito tempo. E que este não é, sem dúvida, o nosso. Vale a pena (mesmo) ler este excelente texto de VPV:

Crescentemente, quando vejo televisão (sobretudo os noticiários), este Portugal onde nasci e, mal ou bem, vivi setenta anos, me parece um sítio desconhecido e hostil, em que não posso continuar. Os velhos são assim e já Chateaubriand dizia: é muito duro envelhecer, mesmo se o mundo à nossa volta não muda ou muda pouco, mas muito mais duro é envelhecer num mundo que mudou. Precisava de um livro para explicar o que me irrita neste país novo da crise e da miséria e, como não tenho força e paciência para começar um livro, resolvi ir escrevendo sobre as coisas que me exasperam mais. Por exemplo:
1. A desvergonha com que a esquerda usa a desgraça dos portugueses como argumento político. Desemprego, impostos, salários ou, no dia-a-dia, urgências que não funcionam, o remédio para a hepatite C que não há, outro desconto ou proibição – tudo serve, não se percebe como, para demonstrar a enorme virtude do PS e a imensa maldade do governo. Nós bem fugimos desta ladainha. Só que ela nunca pára e não nos larga.
2. A multidão de salvadores da Pátria, que prometem o céu e que entretanto se juntam e separam, avançam e recuam, como se andassem num jogo de possessos sem sentido e sem fim. E que berram e se esgadanham por esses debates, despejando lugares-comuns com uma estranha importância e uma grande satisfação.
3. A maneira como o jornalismo gira à volta do desastre, do crime e da pequena história de “interesse humano”, numa altura em que Portugal e a Europa se desfazem.
4. A obsessão incrível e paradoxal com restaurantes, que abrem às centenas (apesar do IVA) e que se pretendem sempre pioneiros de uma especial cozinha ou de uma extraordinária ideia; e que têm na cave vinhos sem igual. Quem lá vai? A classe média que se destruiu, os banqueiros que faliram, os corruptos mascarados que esperam a sua hora?
5. A obsessão geral com o espectáculo; com qualquer sítio onde se juntam milhares de bípedes, saltando e pulando e muitas vezes guinchando, para seu contentamento e nossa aflição. Os “festivais” da carne, da fruta, do queijo, do enchido, do mexilhão, do doce regional ou nacional, da primeira coisa que dê para armar a tenda e ganhar uns tostões.
6. A futilidade da conversa sobre a economia, como se por aqui ainda não se percebesse que a economia não é uma ciência, é um capítulo da política.
7. A inferioridade que revela o culto de Ronaldo – nome obrigatoriamente precedido por o “melhor do mundo” – e o de uma dúzia de personagens menores que se tornaram “os melhores” de qualquer coisa ínfima ou gratuita.

1 comentárioDeixe um comentário

  • Amigo ZP
    Não comento nada sobre o Vasco.
    Numa coisa tem que ser um paciente mas fico-me por aqui.
    O que me preocupa é a Progeria da democracia portuguesa.
    Vamos a pique…………..

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