José Paulo Fafe

E se José Sócrates resolver ser candidato?

AS SUCESSIVAS derrotas que a defesa de José Sócrates tem sofrido nos últimos dias, tanto na Relação como no Supremo Tribunal de Justiça, vão obrigatoriamente levar o antigo primeiro-ministro a rever toda a estratégia da sua defesa que – está à vista! – tem falhado em toda a linha. A opção pelo confronto e o tom provocatório que o advogado João Araújo tem insistido em adoptar têm-se mostrado perniciosos e desajustados num processo em que, tudo indica, a discrição e uma certa “negociação” só conviria a quem viu recentemente revalidada a sua prisão preventiva. Mas também é verdade, convenhamos,  que o estilo de Araújo é, de algum modo, semelhante à postura a que Sócrates desde sempre nos habituou, nos seus melhores e nos seus piores momentos…
Por outro lado, a ideia que se tem hoje em dia do processo é que a vida não está fácil para o antigo primeiro-ministro, sendo raro o dia em que as já célebres e supostas “violações do segredo de justiça” nos revelam várias “embrulhadas” que, a serem verdade, não auguram nada de bom para quem surge alegadamente nelas envolvido – e isso que não sabemos o que ainda virá por aí… Talvez por isso mesmo, a curto e médio-prazo, ou seja antes de terminada a instrução do processo, a Sócrates só lhe reste tentar “puxar” o seu caso para a esfera política, tentando a todo o custo imprimir-lhe uma “carga” que  lhe permita desviar a atenção dos factos que a acusação dará por provados e pelos quais pedirá a sua condenação em tribunal. E essa estratégia de defesa que Sócrates poderá vir ser obrigado a adoptar passará muito possivelmente por uma candidatura presidencial… Isso mesmo, uma candidatura à Presidência da República!
E não pensem que o facto de uma candidatura de Sócrates poder naturalmente atrapalhar a vida a António Costa, ao PS e ao candidato que o partido até lá escolher ou por muito condenada que possa estar ao fracasso logo à partida, o fará hesitar um segundo sequer – longe disso. É que além de colocar o seu processo num patamar puramente político, a sua hipotética candidatura a Belém teria, desde logo, o condão de criar um verdadeiro imbróglio jurídico-político, dado o carácter da sua detenção – preventivo. Seria possível, desde que cumpridos os requisitos legais, impedir alguém que se encontra em prisão preventiva, de apresentar a sua candidatura à Presidência da República? Penso que não. Seria aceitável que, aceite a candidatura, esse candidato fosse prejudicado no período oficial de campanha eleitoral relativamente aos seus concorrentes? Penso que não – ou por outras palavras, seria impossível, no caso dessa candidatura ser “validada” pelo Tribunal Constitucional, manter Sócrates detido durante esse mesmo período… Estaríamos assim perante um complexo e intrincado problema jurídico com uma forte componente política. Um problema que não convirá rigorosamente a ninguém, da direita à esquerda e às instituições. Um problema que só convirá ao próprio José Sócrates que, naturalmente, não hesitará, caso não tenha outra solução à mão, em criá-lo. Ele que já ensaiou, nestes últimos quatro meses, o papel de “mártir político” que uma candidatura presidencial tão bem acentuaria…

1 comentárioDeixe um comentário

  • Amigo ZPF
    Seria interessante ver como é que a Justiça iria “descalçar essa bota”.
    Sócrates só tem um problema,o dinheiro.
    É que os milhões de euros que ainda tem escondidos não os pode arejar de momento,tem que esperar muito tempo,talvez anos,quando já todos se tiverem esquecido dele…
    Quem lhe vai dar dinheiro para uma candidatura?A Fundação Mário Soares?(que recebe da Câmara e dos nossos bolsos)
    Costa não vai nisso,como sabemos.
    Uma candidatura tem o Tribunal de Contas em cima e isso sei eu por experiência.Não se pode aceitar dinheiro algum sem declarar e tudo tem que ter facturas e justificações.Tudo!
    Mas a tua ideia é genial !!!!

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