José Paulo Fafe

Costa e Seguro: o porquê de tanto acinte

CONFESSO QUE este crescente e visível acinte que António Costa tem mostrado relativamente ao seu novo líder António José Seguro e que chega mesmo a roçar as fronteiras do que seria tido como “aceitável” entre duas figuras de proa do mesmo partido, tem-me causado alguma estranheza. Puxei pela memória (que não costuma ser má…), cheguei mesmo a perguntar a uma ou outra pessoa de onde viria tamanha e aparente desprezo por parte de Costa, mas a verdade é que não cheguei a nenhuma conclusão… Até que hoje de manhã, durante uma conversa com um amigo (esse com uma memória verdadeiramente notável!) consegui reconstituir a história da desavença entre estes dois destacados socialistas, que até já chegaram a pertencer ao mesmo governo e tudo… E teremos de recuar até 1984, quando o PS estava praticamente partido em dois – entre os chamados “soaristas” e a facção que, na altura, era conhecida como “ex-Secretariado” e onde pontificavam, entre outros, Francisco Salgado Zenha e António Guterres – para entender os motivos que levaram o actual presidente da Câmara de Lisboa a “ter o pó” que tem ao actual líder socialista.  
Nessa altura, discutia-se também a sucessão de Margarida Marques à frente da Juventude Socialista. António Costa era o nome praticamente consensual e tinha quase assegurada a liderança da “jota” socialista, de que era aliás já um dos principais dirigentes. Consensual até ter assinado a moção do denominado “ex-Secretariado”… Aí tudo mudou, mais concretamente para os “soaristas” que, por mão de António Campos (o homem-forte do “aparelho”) rapidamente encarregou-se de encontrar um opositor à mais do que previsível (e  à partida fortíssima) candidatura de Costa e assim impedir que a JS caísse nas mãos do “ex-Secretariado” – nada mais nada menos que um discreto e tímido jovem algarvio, de seu nome José Apolinário e cujo principal atributo político era ter recentemente conquistado a presidência da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa. Apesar de ninguém acreditar que Apolinário poderia vir a derrotar Costa na “corrida” à liderança da JS, o experiente António Campos encarregou-se de mostrar o contrário: montou na “sala do jardim” da sede do Largo do Rato uma estrutura única e exclusivamente destinada a apoiar a candidatura de Apolinário; montou uma “rede” de apoios a nível nacional, onde se destacava (aí está…) um até aí praticamente desconhecido jovem de Penamancor mais conhecido por “Tozé Seguro”; e rapidamente ficou claro que a sucessão de Margarida Marques, afinal, não eram “favas contadas” para Costa e consequentemente para o “ex-Secretariado”.
E não foram mesmo… Perante uma previsível derrota, Costa optou por sair da “corrida” e, no seu lugar surgiu a candidatura óbvia e nitidamente mais débil de Porfírio Silva, que efectivamente viria a ser derrotado pela candidatura de Apolinário, que durante seis anos (até 1990) “reinou” na JS, altura em que foi substituído por… António José Seguro.
António Costa esse, num discurso durante o congresso que elegeu Apolinário e onde não conseguiu esconder alguma irritação, anunciou o seu abandono da organização de juventude do PS e, dado ter concluído a sua licenciatura em Direito, remeteu-se então à sua actividade profissional no escritório dos advogados Jorge Sampaio e Vera Jardim, deixando a política para segundo plano durante algum tempo.
Enquanto isso e por indicação da JS… António José Seguro viria a presidir ao Conselho Nacional de Juventude, iniciando assim uma carreira política que o levaria, anos mais tarde, a ser deputado, euro-deputado, ministro por duas vezes e agora líder máximo do Partido Socialista.
Será aqui que está a explicação para a irritação que visivelmente Seguro causa ao seu camarada António Costa?
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P.S. – Ao recordar estes episódios, lembrei-me do comentário que Mário Soares fez a António Costa, quando este lhe foi comunicar que tinha subscrito a moção do “ex-Secretariado”. Depois de escutar Costa e as suas razões, com um tom displicente o então secretário-geral socialista lançou-lhe:Ó António que pena… Um jovem com tanto futuro e arruina tudo por causa de uma caneta…“.

3 ComentáriosDeixe um comentário

  • Amigo ZPF
    Imagino que amigo é esse pois a mim sempre me deixou de boca aberta com a memória infalível…
    Isso tudo tem lógica, claro e conhecendo um pouco a trajectória de Costa, nota-se-lhe um certo “ressabiamento” a quem lhe faz frente que pelos vistos lhe dura para o resto da vida. Não é só ele, mas é um hábito muito feio num político. Não sabem separar as amizades verdadeiras do trabalho.
    Não podemos esquecer também que Seguro sempre “plantou cara” ao ditadorzito marginal da Covilhã, o que destruiu o partido e Portugal durante lonnnnnnnnnnnnnnnnnnnnngos 6 anos e por culpa do egocentrismo de Cavaco Silva que queria ganhar as eleições a segunda vez nem que isso significasse a falência do Estado com Sócrates como PM.
    E foi o que aconteceu.
    O País faliu e Cavaco lá ganhou devido à enorme abstenção e com menos meio milhão de votos que na 1ª vez.
    Costa é amigo íntimo do Zé da Covilhã e a ex-mulher, a professora que foi à famosa manif de 150.000 pessoas que Sócrates insultou, também era.
    Ora em ditadura ou és dos meus ou contra mim. Seguro tinha a cabeça a preço.
    O ódio cresceu ainda mais e depois da visita de Seguro aos órgãos da comunicação agora no Congresso, que acabou abruptamente com aquela entrevista chata de Costa, o tipo passou-se.
    Saiu de forma má educada, deixou os Jornalistas de boca aberta mas Seguro nem pestanejou, como devia ser, aliás.
    Costa é refugo que acabará e desaparecerá e Seguro é um dia PM pelo menos dentro de uns 8 anos, coisa que Costa nunca será.

  • O dr. Soares é capaz de ter tido razão quando disse isso ao então jovem Costa. É que duvido que realmente o homem vá mais longe do que presidente da C.M.L. E é preciso recordar as condições em que chegou lá. Vamos ver como e para onde sai…

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