José Paulo Fafe

Com a devida e merecida vénia…

UM AMIGO chamou-me a atenção para o blogue “Pensamento Itinerante” e para a qualidade dos textos da sua autora, Maria Manuel Guerreiro. Visitei-o hoje pela primeira vez e com a devida e mais do que merecida vénia, não resisto a transcrever o seu último “post” intitulado “Não há imprensa livre sem imprensa de rigor”. Aqui fica, sem comentários, até porque a inteligência e a sagacidade não são sequer comentáveis…
Há muito que vimos assistindo à eCor do textongorda do corpo de influência que os órgãos de comunicação social têm em geral na formação das convicções individuais. Hoje em dia alguns órgãos de comunicação social (mais do que seriam de esperar) não se limitam a dar notícias com base nos factos apurados. Não senhor. Vão mais além. Transbordam, recriando e adulterando sensacionalistamente a visão expositiva dos factos. Extravasam por vezes a criatividade decorosa e fabricam verdades editoriais.
Cada vez mais, o que aparece escrito numa página de jornal ou historiado numa peça televisiva tende a ganhar num ápice contornos de certeza suprema e irrefutável para grande parcela de leitores ou telespectadores. E, normalmente, talvez por uma questão de cultura nacional com forte tradição tauromáquica, quanto maior é a ‘tourada’ anunciada no título e quanto mais sangue provocar o seu conteúdo mais efectiva se torna a notícia não havendo desmentido posterior, choro, missas, sentenças ou velas que a possam refutar. Actualmente há ‘lápis’ de jornalistas que possuem magia negra suficiente não só para petrificar a convicção de alguns leitores como também, em certos casos, moldá-la.Por modo próprio de pensar e ver o mundo sou em regra muito inversa a atitudes de queixume, onde se incluem por inerência quaisquer lamúrias sobre o tratamento dado às notícias. Mas pontualmente não posso deixar de observar a deslealdade de alguns para com a profissão que exercem e que até exige uma carteira profissional. A noção de técnica aliada a normas éticas e deontológicas; a precisão e a qualidade ficam por vezes (em multiplicação) do lado de fora da prática jornalística. Um exemplo desses casos e onde pontualmente me detenho suspensa face ao ângulo informativo é, hoje, respeitante a um título de primeira página no Diário de Notícias que dita assim: “Santana e Carmona investigados por novas suspeitas de corrupção”
. Quando li esta parangona pensei blitz que o DN se havia transfigurado horripilantemente no 24 horas. Depois li a notícia e conclui que afinal era mesmo o Diário de Notícias que, não estando endiabradamente possuído pelo ‘vinte e quatro’, apenas se havia superado negativamente na forma e substância do título, na contextualização integrada dos factos e na imagens utilizadas para ilustração do ‘caso’, bem como nas suas dimensões. Como designar uma certa prática jornalística que não pretende unicamente informar mas igualmente construir ardis? – Não é que só me ocorrem substantivos malíssimos?!
Por fim; também me aborrece o facto de me sentir roubada depois de ler um jornal que por acaso até compro sem ser coagida a tal. Por exemplo, o prejuízo de hoje ascende a um euro e vinte, mais o tempo despendido na leitura. Por este motivo, a fim de me poupar futuramente mais prejuízos, bem como a todos aqueles que pensam em semelhança, gostaria de solicitar a alguns ‘senhores e senhoras’ jornalistas, directores e directores adjuntos de certos meios de comunicação que não nos fizessem perder tempo e dinheiro com notícias trabalhadas sob ângulos que por natureza deveriam estar fora de linhas editoriais supostamente de referência. Pode ser? É que é muito abusivo desbaratar a honra alheia. Retira qualidade à democracia
.”

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