José Paulo Fafe

Cada um tem o que merece…

Sempre me irritou aquele frase (ou tese) que cada povo tem os políticos que merece ou vice-versa. Primeiro porque não é verdade; segundo porque é daquelas “máximas” que revelam um certo “primarismo” de análise que nem sempre (ou melhor nunca!) correspondem à realidade. Mas na última sexta-feira, ao ler os resultados de uma sondagem divulgada pela TVI quase que dei por mim a concordar com aquilo com quesempre tinha discordado: de facto os nossos políticos têm o povo que merecem… E tudo isto a propósito do já célebre “caso Freeport”, que mete tios, primos e sobrinhos; autarcas, ambientalistas e comissionistas; procuradores, comentadores que são advogados de alguns dos protagonistas e agentes secretos; e até ingleses que, diga-se em abono da verdade, não fossem eles e tudo isto continuaria a não passar de uma “conspiração de contornos e propósitos políticos” ou de uma “campanha negra” que visava caluniar e vilipendiar personagens que, porventura dado o cargo que ocupam, se julgam acima de qualquer suspeita. Bom, mas adiante… A TVI resolveu encomendar uma sondagem sobre o “caso Freeport” e as implicações que as recentes revelações teriam sobre José Sócrates. Primeiro espanto: apesar do tom convicto e da determinação com que este negou qualquer envolvimento no assunto, quase 40 por cento dos inquiridos consideravam que o primeiro-ministro era “tido e achado” no tema que tem feito notícia um pouco por todo o lado; trinta e tal por cento não sabiam e apenas 26 por cento afirmavam-se completamente convencidos da “inocência” (passe o termo…) de Sócrates. Segundo espanto: à questão colocada sobre se José Sócrates devia continuar a exercer as funções de primeiro-ministro, 52 por cento dos inquiridos respondia afirmativamente – assim, sem mais nem menos! Perguntarão: mas então isso não é contraditório? Por um lado, 40 por cento acham que José Sócrates está envolvido no “caso Freeport”, mas por outro mais de metade (52 por cento…) acham que ele deve continuar como primeiro-ministro. Eu acho que sim, que é contraditório, que a “bota não bate com a perdigota”, mas de facto, nos tempos que correm e no país em que vivemos, já estou por tudo. Até por achar que cada povo tem os políticos que merece. E vice-versa é claro…

3 ComentáriosDeixe um comentário

  • Caro José,

    É uma questão de analisar a sondagem de forma precisa. Cerca de 50% acham que Sócrates deve continuar, para obter este número basta somar os 26% daqueles que acreditam que o PM está inocente e os cerca de 30 e tal% que não sabe ounão têm opinão, mas provavelmente preferem a estabilidade governativa.
    Além disso, não é linear que os que consideram que Sócrates está metido nesta embrulhada defendam a sua saída do Governo. Em Portugal elege-se Fátimas, Valentins e Isaltinos de olhos fechados, logo não há motivo para surpresa.

    Lembre-se que os portugueses conhecem, muito bem, todos os actores políticos actuais. Se continuam a dar a vitória a Sócrates o erro é da oposição, que não se impôs de forma a criar uma solução governativa alternativa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados *