José Paulo Fafe

Brasil: o PT encurralado…

PT

A DECISÃO para os parlamentares do PT votarem a favor da instauração de um processo por “quebra de decoro parlamentar” do presidente da Câmara de Deputados Eduardo Cunha e que veio a despoletar, por mera révanche, o início do processo de impeachment contra Dilma, nunca poderia ter ocorrido sem o conhecimento e agréement de Lula. Ou então, no limite, terá sido tomada no âmbito de uma estratégia claramente suicida do “tudo ou nada” por parte de um “certo PT” e que aposta no “sacrifício” de uma desastrada Dilma Rousseff para, em 2018, tentar fazer regressar Lula ao cadeirão presidencial. E suicida, porque os brasileiros “cansaram” do PT, de Lula, de um projecto político gasto e sem rumo, que foi desvirtuado por um perigoso e fatal deslumbre pelo poder por parte daqueles que, ao longo dos anos e até alcançarem-no, apregoaram valores e princípios que rapidamente deixaram de ser seus. Resumindo: acabou o tempo foi PT, o tempo de Lula e o “fantasma” que ficará como herança deste tempo pairará durante anos sobre o Brasil e também, diga-se em abono da verdade, sobre o continente e a esquerda latino-americana.

Voltemos um pouco atrás: mercê de uma natural expectativa por parte de uma sociedade que sabia que alguma coisa tinha que mudar e também de uma conjuntura económica internacional extremamente favorável, os primeiros oito anos de poder dos petistas, que coincidiram com os dois mandatos de Lula, foram anos fartos e que tiveram o condão de agradar à generalidade dos brasileiros – por um lado, aos mais desfavorecidos, que começaram a ver a sua vida melhorar a olhos vistos; por outro, aos mais poderosos, a quem foram criadas condições objectivas para serem ainda mais poderosos. Aliás, há uma frase simples e objectiva que define bem os mandatos do líder histórico do PT que, em 2010, recorde-se, abandonou o palácio do Planalto com uma taxa de aprovação a rondar os 80(!) por cento: “nunca os pobres viveram tão bem, nem os ricos ganharam tanto dinheiro“.

Porém, ao longo desta última década, o PT não conseguiu levar a cabo a sua necessária “refundação” e não soube promover o mais que necessário reordenamento no cenário político-partidário brasileiro que urgia ser feito – bem antes pelo contrário. Elegeu o PSDB como adversário, “encostando” um partido cuja matriz ideológica é eminentemente social-democrata à direita, fortalecendo-o; concedeu espaço e poder a um sinistro e fisiológico PMDB que estendeu os seus tentáculos no aparelho de estado; afastou personalidades e sectores políticos que se albergaram no PSB e no que é hoje é a Rede; não teve pejo em “sacrificar” algumas figuras que foram próceres do projecto; no fundo, enquistou-se na sua própria máquina, sendo  incapaz de abrir-se de facto à sociedade e, quando o fazia, fazia-o única e exclusivamente numa lógica mercantilista e com objectivos que passavam  por jogos e negociatas políticas e pessoais, que rapidamente transformaram o PT num partido igual a qualquer outro. Acresce a tudo isto, o natural deslumbramento de quem, de um dia para o outro, se sentou à mesa do orçamento da União e teve acesso a “patamares” de um estilo de vida que o poder proporciona no Brasil a que a generalidade dos seus dirigentes dificilmente alguma vez acederiam.

“Desideologizado” (passe a expressão…), autêntico “albergue espanhol” que reúne desde serventuários da ditadura a antigos guerrilheiros que a combateram, hoje, o PT e também Lula estão encurralados – fustigados por sucessivos escândalos de corrupção, responsabilizados por um previsível colapso da economia brasileira, ostracizados pela generalidade da sociedade brasileira que suspira pelo fim do que consideram ser um “pesadelo”. Resta-lhes em termos eleitorais uma significativa e ainda poderosa “bolsa” a nordeste,  basicamente formada e sustentada por políticas sociais que tiveram mais de assistencialismo que qualquer outra coisa, como um famoso “Bolsa Família”, hoje infelizmente visto à distância não como uma conquista, mas sim como um “meio” que foi decisivo na estratégia de sustentação no poder ao longo dos últimos anos. Até mesmo as chamada “elites” intelectual e universitária que durante muito tempo foram “pilares” do PT, hoje são omissas ou pura e simplesmente “desertaram” para outras paragens…

No meio disto tudo, não deixando de ser um facto curioso, nunca como agora a corrupção foi tão eficaz e fortemente combatida – e este agora refere-se ao “consulado de Dilma: no último ano e meio, foram ou estão detidos, a “nata” dos empreiteiros brasileiros, um banqueiro, um tesoureiro do seu próprio partido, o líder no Senado do seu governo, dirigentes de empresas estatais nomeados pelo seu próprio partido e uma série de lobistas que durante anos passearam incólumes pelos corredores do poder intermediando e fazendo os seus negócios à custa do erário público. Chega? Pelos vistos não, o Brasil, ou melhor, um “certo Brasil” quer mais, mesmo que o possível e desejado impecheament de uma cada vez mais debilitada Dilma possa ter sido desencadeado por alguém como Eduardo Cunha, uma pessoa que dificilmente consegue fugir ao rótulo de “corrupto”…

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