José Paulo Fafe

Boa noite…

TENHO UM amigo que me ligou hoje várias vezes, dando-me conta do pânico que o assalta cada vez que se lembra que, mais hora menos hora, tem de ir dormir. Como o amigo em questão não é homem dado à bebida e muito menos a outros vícios, comecei a preocupar-me ao terceiro ou quarto telefonema, quando compreendi que todos os temores que ele me transmitia eram a sério: “Não sei, não sei se consigo fechar os olhos… outra vez o que me aconteceu na noite passada e vou-me desta para melhor!“, quase que gritava, lancinante, do outro lado da linha. E eu arriscava: “Tonturas? Dores nas costas? Será alguma hérnia discal? Não tens posição, é?“. E ele suspirava e só repetia sem cessar: “Antes fosse, antes fosse…“. Sugeri-lhe, sem saber o que o levava a esse verdadeiro ataque de pânico, que deixasse a luz acesa, sei lá, por exemplo que não desligasse a televisão… Aí, ele urrou! “Não, isso nããããooooo!!!!!“. Aí quem se assustou fui eu. E não hesitei: meti-me no carro e fui até sua casa. Encontrei-o de pijama, num estado lastimável, barba de três dias, olheiras de quatro, andrajoso, com um ar de zombie que metia dó ao coração mais empedernido e só repetindo à exaustão: “Não me digas nada, não me perguntes nada, não queiras saber… ficas igual ou pior que eu…“. Tanto insisti, que o meu amigo finalmente me confessou o motivo dos seus males – nada mais nada menos que o sonho que o “perseguia” já há uns quantos dias, especialmente quando se tornou inevitável que Sócrates ia borda fora: “Tu nem imaginas… Já viste o que é sonhar, ver aparecer impantes e peito-cheio, preparados para tomar posse no palácio de Belém, perante aquele espantalho algarvio, toda aquela tropa fandanga que anda por aí há uns anos a ver se lhe toca alguma coisa?“. Tentei tranquilizá-lo: “É pá, não exageres. Já tivémos os Lellos, os Lacões, os Valter nãoseiquê, os Pinhos, tanto cromo, como é que podes ficar assim nesse estado?“. A resposta veio pronta, mas atabalhoada tal a convulsão que o choro lhe provocava. E entre lágrimas escorrendo-lhe, qual cascata, pela face, o meu amigo arrasou-me com um argumento demolidor: “Ah é?! Então e os Cesários? Os Botas? Os Marcos Antónios? Os Nogueiras Leites? Os Liparis? Isto fora os que a gente nem conhece….
Confesso que nada mais disse. Arrasado, próximno do “estado de choque”, levantei-me vagarosamente do sofá, lancei um profundo olhar de compreensão ao meu pobre amigo e só parei quando me sentei ao volante do carro. Mas infelizmente ainda tive tempo de o escutar, desde a soleira da porta, gritar-me: E imagina se o governo for de coligação…?”. Quase sem dar conta, meio à deriva, consegui chegar a casa e a primeira coisa que fiz – pelo sim, pelo não – foi certificar-me que ainda tinha uns quantos “xanax’s” (ufff….) e abrir a cama. Seja o que Deus quiser e, como diz alguém que eu conheço, “valha-nos Santa Maria Madalena“…
Boa noite!

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