José Paulo Fafe

BES: será que os telefones deixaram de tocar?


É CURIOSO observar como a política editorial da esmagadora maioria dos nossos jornais muda, não digo ao sabor dos ventos, mas seguramente ao toque mais ou menos insistente de um telefone. Há poucos dias atrás, uma mais que visível “guerra surda” existente no seio do grupo Espírito Santo era matéria que os nossos jornais tinham uma grande dificuldade em abordar e quando o faziam, normalmente era certo e sabido quem saía mal na fita; há menos de uma semana, uma busca policial à sede do BES foi “escondida” ou, no melhor dos casos, remetida para páginas bem interiores dos nossos jornais, limitado-se uma ou outra edição online a dar a notícia com algum destaque e apenas durante algumas horas; e na sexta-feira passada, a edição de fim-de-semana de um jornal económico chegou mesmo a fazer manchete com um alegado “golpe de estado” fracassado e uma suposta e retumbante vitória de Ricardo Salgado numa reunião do Conselho Superior do grupo que lhe teria manifestado uma “confiança incondicional” na continuidade na liderança do grupo.
Mas, a pouco e pouco, as coisas foram-se alterando. E desde que o “Expresso”, no sábado, veio explicar que afinal o voto de confiança recebido (e solicitado) por Salgado só fora dado na condição deste aceitar iniciar de imediato o seu próprio processo de sucessão e a alteração do modelo de governação, nem o forcing da aparentemente poderosa máquina comunicacional do actual poder do grupo (onde sobressaíram sucessivas notícias “plantadas” sobre José Maria Ricciardi, aparentemente o “inimigo de estimação” do ainda líder do BES) conseguiu contrariar o que muitos já sabiam e que ontem a declaração do comandante António Ricciardi,  patriarca do grupo e presidente do Conselho Superior, só veio definitivamente confirmar e, “por tabela”, deitando por terra a chamada “verdade oficial”. 
A partir do momento em que ficou visível que o poder de Salgado se estava a esmorecer, a atitude dos nossos jornais foi rapidamente alterando-se – e se a declaração pública do comandante Ricciardi teve merecido e óbvio destaque nas edições online e aí se manteve durante horas, hoje o acordo assinado e divulgado publicamente ontem ao fim da tarde por Ricardo Salgado e pelo seu primo José Maria Ricciardi merece óbvias (mas inusitadas, no caso) honras de primeira página em tudo o que é jornal cá do burgo. A pergunta é mais que obrigatória: será sinal que os telefones deixaram de tocar?

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Só uma última nota: não resisti a tentar encontrar no “Jornal de Negócios” de hoje uma referência ao tal “golpe de estado” falhado que ocupou a manchete da sua edição da última sexta-feira e que é desmentido no comunicado conjunto de Salgado e Ricciardi. Vi a primeira página e fizeram o favor de ler-me ao telefone o (oportuno) editorial do director: nem uma linha sequer. Querem ver que alguém os enganou?! Pois é, já não se pode confiar em ninguém, n’é?…

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