José Paulo Fafe

Antes de Evo, tinha sido Fidel…


A PROPÓSITO da decisão de alguns países europeus em não permitir a aterragem do avião que transportava o presidente boliviano Evo Morales no seu regresso de Moscovo e particularmente dos “motivos técnicos” invocados pelas autoridades portuguesas, não consegui deixar de lembrar-me de um episódio semelhante ocorrido com Fidel Castro, em Março de 1977 e que ainda hoje – trinta e muitos anos depois – apenas é do conhecimento de quem esteve no centro do que pode chamar-se conflito diplomático entre Havana e Lisboa. Tudo começou quando o líder cubano convocou o então embaixador português em Cuba e lhe comunicou que, em resposta a vários convites informais que tinha recebido por parte de diversos responsáveis políticos portugueses que tinham visitado Havana naqueles anos agitados, daí a dois ou três dias passaria por Lisboa numa “escala técnica” durante uma viagem que faria a alguns países europeus e africanos. 
Nessa altura, em Portugal, vivia no rescaldo de um traumático e complexo processo de independência de descolonização. A hipótese de Fidel usar a Portela de Sacavém como “ponto de passagem” para uma eventual ida para Luanda traduziria na prática um agrémeent português à presença militar cubana naquela antiga colónia, algo que seria uma autêntica bomba-relógio, especialmente numa altura em que dezenas de milhares de  refugiados (vulgo retornados) tinham “invadido” o País, deixando Angola à pressa e abandonando seus bens. A forma evasiva como Fidel fugiu a revelar o seu destino, levou a que o embaixador português alertasse de imediato o seu governo para essa hipótese Durante cerca de 48 horas, o governo português (chefiado por Mário Soares e em que José Medeiros Ferreira ocupava a pasta dos Negócios Estrangeiros) e o embaixador em Havana, entretanto chamado a Lisboa, tentaram por todos os meios esclarecer o destino do líder cubano. Em vão… E à última hora, já com o Ilushyin-62 da Cubana de Aviación a poucas horas de aterrar na capital portuguesa, a recusa cubana – alegando motivos de segurança – em aceder ao pedido das autoridades aeronáuticas portuguesas para revelar a lista de passageiros (um procedimento formal, diga-se passagem), levou a que, por ordem expressa do então ministro dos Transportes Ferreira Lima, fossem invocadas “razões técnicas” para proibir a aterragem do avião na Portela. Resultados práticos? O passeio de helicóptero e o almoço no Guincho que o então presidente  Ramalho Eanes contava oferecer a Fidel foram cancelados; o avião que transportava o líder cubano foi “obrigado” a fazer escala em Argel; e as relações entre Lisboa e Havana nunca mais foram as mesmas. Ah, é verdade! O destino de Fidel Castro era mesmo Luanda…

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