José Paulo Fafe

Álvaro Cunhal: a propósito do seu centenário


A PRIMEIRA vez que tive oportunidade de ver de perto e trocar uma ou duas palavras de circunstância com o dr. Álvaro Cunhal foi em Havana, no aeroporto de Rancho Boyeros, quando acompanhando meu Pai que na altura desempenhava funções naquela capital, “surpreendemos” o líder comunista a desembarcar de um vôo da Aeroflot que o tinha trazido directamente de Lisboa. Tinha eu quatorze anos – estávamos em Novembro de 1975, poucos dias (ou mesmo horas…) depois de um dia 25 que, contrariamente a um outro de Abril, não lhe deve ter deixado grandes recordações. 
Ao longo dos anos e mercê da minha profissão de jornalista, cruzei-me algumas (poucas) vezes com o dr. Cunhal. Foi, salvo erro, numa campanha eleitoral no início do anos 90  que, pela primeira vez, vi o líder comunista “em acção”, chamemos-lhe assim.  Estava em Castro Verde, juntamente com o Jorge Lemos Peixoto e o Augusto Baptista (o primeiro já “ex” e o segundo fervoroso e convicto militante da “causa”) quando soubemos que Cunhal ali passaria, a caminho de  Mértola, onde faria um comício. Não foi difícil convencer os meus então colegas da velha  “Sábado” para rumarmos até lá, com um Augusto certamente mais discretamente entusiasmado que o Jorge, que já tinha dado há muito para aquele peditório. Em Mértola, o Augusto (excelente fotógrafo, diga-se de passagem, talvez um dos melhores com quem me cruzei em toda a minha vida!) foi a “chave” para que subíssemos para o pequeno palco do comício e acompanhássemos de perto um Cunhal que ele tratava com um íntimo tu cá-tu-lá, demonstrando uma intimidade que um sempre misterioso e enigmático Augusto nunca revelaria o mínimo detalhe. 

Acabado o comício lá seguimos por uma pequena alameda fora, lado a lado com um Cunhal aparentemente descontraído e que era saudado com uma estranha reverência por quem o interpelava, mas que  curiosamente também o tuteavam e até beijavam… O homem caminhava vigorosamente, pochette debaixo do braço, olhar prescrutante e visivelmente atento às nossas (mais à minhas, naturalmente…) reacções, um pouco como que testando-me.  A certa altura, virou-se na minha direcção e referindo-se ao (relativo) entusiasmo que rodeava a sua presença em terras mertolenses, disparou: “Isto não está nada mau, não acha?“. Não sei que raio me passou pela cabeça, que dei por mim a responder-lhe de supetão e, convenhamos, pouco (ou nada) simpaticamente: “Para quem gosta sôtôr, para quem gosta…“. Juro que mal tinha acabado de responder a Cunhal e só pedia que aparecesse um buraco para me enfiar, tal a gaffe que senti ter cometido. Não me perguntem qual foi sequer a reacção facial do líder do PCP perante a minha resposta porque eu arranjei maneira de desaparecer dali num ápice, meter-me no carro e só parar em Lisboa, tomado por um misto de vergonha, mas também (confesso) de algum deleite por me ter saído aquela “bojarda” da boca p’ra fora.
Mas esta não seria a minha única gaffe com o dr. Cunhal. Algum tempo depois, coube-me ir ocupar a direcção de Informação da Rádio Comercial, então ainda estatal e dentro do “universo RDP”. Criei então, aos sábados pela manhã,  um programa intitulado “Prova dos Nove”, que durava duas horas – a primeira em que eu entrevistava uma personalidade política; e a segunda em que um “painel” de comentadores colocava também questões ao convidado. As “negociações” para levar o dr. Cunhal aos estúdios da Sampaio e Pina duraram algumas semanas e não foram fáceis. Do lado lá, da Soeiro Pereira Gomes, o meu interlocutor era, salvo erro, o Jorge Cordoeiro, responsável pelo gabinete de imprensa do PCP que – e bem – discutia o mínimo detalhe, com especial atenção ao painel que naquela ocasião me acompanharia na entrevista ao seu líder. Depois de alguns dias de espera, veio o acordo aos três nomes que eu tinha indicado: Ricardo Leite Pinto e os jornalistas Rogério Rodrigues e o já referido Jorge Lemos Peixoto. Comentadores aceites, data agendada, tudo certo portanto. 
Lembro-me que no sábado em questão, cheguei à rádio por volta das dez da manhã, uma hora antes do programa começar. Estava no meu gabinete, revendo notas e ultimando os preparativos da entrevista, quando batem à porta e entra o Rui Onofre. Perguntará quem não sabe: quem é o Rui Onofre? Pois bem, o Rui era um antigo militante do PCP que, ainda jovem, tinha sido enviado para Moscovo para estudar e a quem, possivelmente, a realidade da pátria soviética tinha feito “abrir os olhos” (para uns), “renegar os ideais” (para outros) e converter-se num feroz e implacável crítico do comunismo. O Rui, boa pessoa, era desde há uns meses nosso correspondente em Moscovo, de onde – verdade seja dita… – enviava crónicas bastante equilibradas, ainda que se notasse de quando em quando uma certa vontade de ajustar contas com um passado que visivelmente o tinha marcado. Num segundo percebi tudo, principalmente a alhada em que estava metido… É que uma semana e tal antes antes ele tinha aparecido a despedir-se de mim, já que as suas férias estavam a terminar e iria regressar a Moscovo daí a dois ou três dias.  Numa conversa de circunstância, en passant, eu tinha-lhe referido que era uma pena que não estivesse em Lisboa quando o dr. Cunhal fosse ao “Prova dos Nove”: “Se estivesses cá, punha-te no painel…“, referi-lhe. A conversa tinha ficado por ali, não fosse Onofre ter ficado com a pulga atrás da orelha e adiado o regresso a Moscovo – isto sem que eu soubesse ou voltado a pôr-lhe a vista em cima. Até essa “maldita” manhã…
– “Então estás cá ainda?!
– “Fiquei mais uns dias. Não me disse que era engraçado que eu participasse na entrevista ao Cunhal?“, respondeu-me, deixando-me completamente “à nora” e sem saber como é que ia descalçar aquela bota…
Tinha três opções: a primeira, dizer ao rapaz que “nem pensar”, que ele não me tinha avisado e que “agora é impossível”. Mas custava-me fazer-lhe isso – percebia que ele ansiava por aquele momento. A segunda, era aguardar pelo dr. Cunhal e expôr-lha a situação, solicitando o seu agréement para a inclusão à última hora de um quarto integrante do “painel” – e era isso que devia ter feito, diga-se de passagem, ainda que adivinhasse a reacção, mais do que de Cunhal, a dos seus acompanhantes… A terceira, pela que optei, foi mandar montar mais um lugar e microfone no estúdio e… seja o que Deus quiser!
Dez ou quinze minutos antes do programa, recebi o dr. Cunhal à porta da Sampaio e Pina, cruzámos aquele longuíssimo corredor trocando algumas palavras de circunstância e lá entrámos no estúdio. Virado para a porta, eu tinha à minha esquerda e a uns dois metros de distância, Cunhal sentado numa outra mesa e, à minha direita, tinham lugar os comentadores convidados, Rui Onofre incluído. Os minutos iam passando, o início do programa aproximando-se e eu praticamente “rezando” para que o líder comunista não desse pela presença de um quarto comentador, muito menos que soubesse quem ele era. Já estávamos em pleno noticiário das onze, a pouco mais de um minuto do programa começar, quando o dr. Cunhal que até aí tinha estado a rabiscar umas notas, levantou a cabeça e se me dirigiu: “Ó José Paulo Fafe, pode chegar aqui um segundo?“. Ai, pronto, já está… Lá me levantei, um olho no relógio, um ouvido no noticiário e a medo lá me aproximei da mesa do entrevistado. Falando baixinho, com uma expressão facial imperturbável, Cunhal disse-me serenamente: “Queria só dizer-lhe que neste estúdio, contrariamente ao que estava combinado, está presente uma pessoa a mais“. Atrapalhado – claro – respondi-lhe de imediato: “Ó sr. dr., tem toda a razão, toda. Se quiser, essa pessoa sairá de imediato, não tem problema, a falha é minha…“. Com um ar meio condescendente, mas com uma ironia bem visível, Cunhal arrumou a questão: “Não é preciso, só quero é que isso fique claro antes do programa começar!“. Uff, claríssimo – quem nem água, como diria o outro… 
Já agora refira-se que na segunda hora do programa, quando Rui Onofre teve oportunidade de questionar o seu antigo líder (sim, porque na verdade ele via-o mais como isso que como qualquer outra coisa…) este não teve qualquer pejo de, com uma frieza impressionante (desculpa lá, ó Rui…) “desfazê-lo”, trazendo mesmo à liça relatos tidos sete ou oito anos atrás num congresso em Almada com “um jovem que curiosamente me faz lembrar fisicamente muito o entrevistador que me colocou essa questão e que, vejam lá, defendia exactamente o contrário do que está implicitamente a defender na pergunta que me faz…“.
Para terminar: tanto o dr. Cunhal como eu pertencemos aquele grupo que não fomos tocados pela fé, ainda que no seu baptismo (coisa que eu não tive), lá em Seia, a sua madrinha  tenha sido nada mais nada menos que… Nossa Senhora da Conceição. Mas apesar de ambos sermos agnósticos e se porventura existir um “lá em cima” e o histórico líder comunista ler este post, só me resta, muito respeitosa e sinceramente, dizer-lhe: “Desculpe lá qualquer coisinha, dr. Álvaro Cunhal“…

5 ComentáriosDeixe um comentário

  • Dr. João Paulo Fafe,
    Permita-me felicitá-lo por este seu post. Que duas estórias fantásticas contadas de de uma maneira tão cativante e num português tão escorreito. Apesar do dr. Álvaro Cunhal não fazer parte do meu leque de personalidades preferidas em termos políticos, acho que apesar de tudo era alguém a quem se deve respeito pela coerencia que sempre mostrou.
    Escreva mais destas suas memórias. De certeza tem mais, muito mais.
    Parabéns.
    Com os cumprimentos, António Marques

  • Relatos que definem bem a personalidade de uma figura ímpar da nossa História. E também a noção que o Fafe tem disso ao contar esses episódios.

  • Amigo ZPF
    Li com atenção o teu post pois tens essa forma de contar as coisas como só tu sabes.Só mesmo tu me farias ler sobre Cunhal.
    Imagino o que pensarias desse homem aos 14 e depois em adulto.
    Eu não só não tenho a mínima simpatia por ele como tenho razões fortes de lhe ter certa mania.
    Posso garantir que não fossem Jaime Neves, Eanes e alguns mais, Cunhal não seria nenhuma figura agradável de recordar………
    Li muita coisa programada.
    Vi listas de nomes a abater(assassinar).
    Sei do que falo.
    Foi uma fera enjaulada que nunca teve força para se libertar e que como dizem as comunistas e os comunistas portugueses que nunca souberam o que era o Comunismo nem em que realmente votavam, “Graças a Deus”.

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