José Paulo Fafe

A rua que hoje é de Sócrates já foi da Dona Branca…

ABADE FARIA

A REPENTINA entrada em cena da até agora praticamente desconhecida Rua Abade Faria no quotidiano mediático nacional fez-me recuar uns bons trinta e tal anos, até ao início da década de 80, estava então eu no “Tal&Qual” a dar os primeiros passos como jornalista. Ao longo destes anos, já ouvi as versões mais mirabolantes sobre como e quem descobriu a Dona Branca, aquela senhora de carrapito que mais tarde ficou quase que imortalizada pelo apodo de “banqueira do povo” com que a telenovela da RTP a “baptizou”. Já escutei terceiros a contar que tinha sido “A” ou “B” sem que qualquer deles o tenha desmentido e até já li uma entrevista ou um texto (já não sei…) de alguém que, por ter tirado uma fotografia (e vá lá saber-se como, porque habitualmente costumava dar às de vila diogo quando as coisas ameaçavam dar para o torto…), se julga dono de uma história que teve pouco de “jornalismo de investigação” e muito (ou quase tudo) de “pura coincidência”…

Vamos lá então… Tudo começou numa conversa que eu tive com uma amiga, conversa essa mantida à volta de uma mesa, ou do “Procópio” ou do “Foxtrot”, já não me lembro ao certo, em que essa minha amiga, divorciada há relativamente pouco tempo, me falou que tinha entregue os cerca de 800 contos recebidos do ex-marido a uma senhora que mensalmente lhe pagava 80 mil escudos. “Dez por cento ao mês?”, perguntei-lhe espantado, porque não achava normal. “Que sim!”, garantia-me ela. A conversa tomou outro rumo, mas eu fiquei a matutar no assunto, tendo dias mais tarde voltado à carga, tentando saber mais detalhes. Ela lá me contou, que tinha o dinheiro há quase um ano entregue à tal senhora, que nunca tinha existido qualquer atraso, que os 80 contos eram pagos pontualmente na data acordada e que era essa senhora que pessoalmente tratava de tudo, que umas vezes pagava-lhe em cheque, outras em dinheiro, enfim uma série de pequenos detalhes e que culminaram num convite: “Para a semana, penso que na terça ou na quarta, é dia de ir lá. Se quiseres vais comigo e vês com os teus próprios olhos…”.

Escusado será dizer que quatro ou cinco dias depois estava lá caído com a minha amiga. Onde? Exactamente na Rua Abade Faria, não me lembro o número ou o andar, só sei que era a própria Dona Branca quem  recebia os “clientes” com um sorriso simpático e tratando-os, neste caso, por “minha filha”. Se bem me lembro, tinha um caderno de capa preta, um cheque agarrado com um “clip” a uma folha desse mesmo caderno e que rapidamente entregou à minha amiga que, por sua vez, rubricou a folha.

Nesse momento percebi de facto que estava ali um grande “furo” jornalístico e durante uns dias fiquei a matutar no que fazer e também como fazê-lo – até porque havia ali inúmeras “variáveis” e condicionantes, a principal envolvendo essa minha amiga que, estando de licença sem vencimento do seu emprego, vivia da “mesada” da Dona Branca… Poucos dias mais tarde, ganhei coragem e resolvi falar com o Hernâni Santos, que na altura “comandava” o “Tal&Qual”, ainda que o José Rocha Vieira fosse o director. O Hernâni era (e é, embora lhe tenha perdido o rasto sei lá há quantos anos…) uma daquelas pessoas que, embora tenham um feitio muitas vezes a roçar o insuportável, são de um profissionalismo e de uma capacidade de trabalho notáveis e – não me custa rigorosamente nada reconhecê-lo! – deve ser das pessoas com quem eu mais aprendi no jornalismo, por muito que isso lhe custe, dadas as nossas relações que, a partir de certo momento, passaram a ser as piores possíveis. A primeira reacção do Hernâni foi de pensar que, ou estava completamente doido, ou então tinha apanhado uma bebedeira na noite anterior que ainda durava. “Isso não pode ser!”, respondeu-me cortante e secamente. Eu lá insisti e só quando lhe contei que tinha ido há dois ou três dias com a minha amiga à tal senhora e tinha visto com os meus próprios olhos ela pagar os 80 contos é que começou a perceber que afinal aquilo tinha pernas para andar. Honra seja feita ao Hernâni que entendeu logo no primeiro momento que aquilo que tudo indicava ser um grande “furo” tinha um obstáculo que teria de ser ultrapassado – o que tinha a ver com a minha amiga e com a dependência económica relativamente aos juros mensais que recebia na Rua Abade Faria. É que era óbvio que se o esquema dos 10 por cento ao mês fosse notícia, estaria condenado a prazo – ou porque as autoridades acabavam com aquilo de um dia para o outro ou então, como se suspeitava, aquilo era uma coisa tipo-pirâmide que se desmoronaria num ápice. A coisa resolveu-se daí a uns dias com uma conversa entre a minha amiga e o Hernâni e com um acordo entre ambos e que, salvo erro, era mais ou menos este: ela, que já tinha duplicado praticamente os 800 contos entregues à Dona Branca, iria-os retirar no mês seguinte e o jornal ficaria “livre” para fazer a história…

Assim foi. Entretanto, nesse período, uma tarde estava eu no “Fumaças” (quem se lembra do “Fumaças”, ali no túnel que liga a Duque de Palmela ao topo da Avenida da Liberdade?) a comprar a “Cambio16” (quem se lembra da “Cambio16”?), e fui abordado por alguém que eu conhecia que me perguntou se eu queria ir para o “Expresso” (ali mesmo à frente), que havia uma vaga de colaborador permanente na secção de desporto. Eu fui, claro. E a Dona Branca, essa, ficou no “Tal&Qual”…

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