José Paulo Fafe

A propósito do "preso nº 44"…


ESPEREI QUASE quinze dias até resolver escrever estas linhas. Pensei que esse tempo bastasse para que o estranho júbilo em ver um antigo primeiro-ministro atrás das grades passasse e que o bom senso tomasse conta dos espíritos mais exaltados, que é como quem diz da turba ululante e frenética que inundou as redes sociais não escondendo a sua euforia pelos acontecimentos recentes.
Não gosto de José Sócrates, nunca o escondi. E não é de hoje, é de há muito. À minha maneira, combati-o o mais que pude, estive claramente do lado oposto da barricada, não me poupei a esforços para que, primeiro, ele não ganhasse as eleições em 2005, e depois, para que ele fosse afastado do poder o mais depressa possível. Não vou aqui reclamar medalhas ou reivindicar reconhecimento por há muito tempo ter denunciado “preto no branco” muito do que hoje todos o acusam e responsabilizam. Tão pouco vou cair naquela velha e chata ladainha do “‘tão a ver, eu bem dizia…”. Não, nada disso. Mas não resisto a reivindicar, isso sim, esse mesmo passado para poder criticar os que, agora que Sócrates está na mó de baixo, se apressam a mostrar uma estranha felicidade em vê-lo em palpo de aranhas.
Ao longo destes dias tenho visto um pouco de tudo, a começar por gente que fez parte do establishment socrático e que pactuou, silencioso e cúmplice, com alguns dos seus desmandos, até algumas publicações e jornalistas que se acocoravam perante o poder de antanho e que hoje, certamente esquecidos dos fretes inqualificáveis que protagonizaram, surgem militantemente alinhando nesta fúria anti-Sócrates.
E tenho felizmente reparado nos outros. Nos que de facto foram “vítimas” de Sócrates e preferem estar calados,  não alinhando nesta onda de vingança que alastra pelas redes sociais e onde grassa uma imbecilidade por parte de  muitos que, durante os cinco anos de consulado “socrático”, foram incapazes de levantar um dedo ou mexer uma palha e que  hoje se transformaram em arautos e candidatos a “carrascos” de quem nunca ousaram enfrentar no seu apogeu e que estranhamente (ou não?) mostram agora uma inconcebível, inconsequente e cobarde sede de vingança. E quando falo desses, estou a referir-me por exemplo a jornalistas como Rui Costa Pinto e até Manuela Moura Guedes, esses sim “vítimas” da poderosa máquina socrática que, incomodada e sentindo-se acossada, os marginalizou e afastou do exercício da sua profissão; de Pedro Santana Lopes, a quem ainda há bem pouco tempo e numa visivelmente desequilibrada entrevista ao “Expresso”, Sócrates apelidou de “bandalho“; ou mesmo de Fernando Lima, a quem as tropas socráticas “cercaram” a propósito de um (ainda) mal esclarecido caso. A todos eles seria fácil surgir agora na primeira linha, de dedo em riste e não escondendo a sua alegria em ver o cidadão José Sócrates Pinto de Sousa transformado no “preso 44” do Estabelecimento Prisional de Évora. Não o fizeram, preferiram optar, uns por um respeitoso e digno silêncio, outros por um cuidado e civilizado discurso.
Tal como eles, eu também sempre quis ver Sócrates derrotado. Mas prefiro mil vezes vê-lo  morto politicamente, nas urnas e numa lógica democrática, que numa desconfortável cela no Alentejo… É isso que felizmente me diferencia dos outros, dos neófitos do anti-socratismo, agora que é fácil (e moda) zurzir torto e feio em quem está preso preventivamente, acusado de corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal.

2 ComentáriosDeixe um comentário

  • Não exageremos. Penso que há excepções más. O sentido do humanismo prevalece.Mesmo que Sócrates saia sem castigo,está e sairá doente.As suas reacções são a mostra disso.
    Oxalá haja equívocos.

  • Em politica pura,os fins justificam os meios.
    O problema é se o homem é condenado por acções
    ilícitas quando era chefe do governo.Porque nesse
    caso,as decisões podem ter sido colectivas ou
    toleradas.E isso contamina todos os governantes
    que integraram os governos Sócrates!
    Incluindo António Costa.
    À bon entendeur…

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