José Paulo Fafe

A propósito de um post de José António Barreiros: memórias de uma conversa com Oleg Kalugin


A PROPÓSITO de umas declarações (à primeira vista um quanto estapafúrdias, convenhamos…) de Zita Seabra acerca de escutas colocadas pelos “serviços de inteligência” do PCP nos aparelhos de ar condicionado instalados pela antiga empresa FNAC em gabinetes “sensíveis” do Estado português, o sempre atento José António Barreiros lembra no seu blogue www.omundodassombras.blogspot.pt  a visita do general Oleg Kalugin, antigo chefe da contra-espionagem soviética, a Lisboa por ocasião da publicação da edição portuguesa do seu livro “Memórias de um espião”. Na altura, Kalugin escreveu, afirmou (e reafirmou) que uma substancial parte dos arquivos antiga PIDE/DGS tinham sido, em pleno PREC, “transferidos” para Moscovo. E a esse propósito pergunta (e bem…) José António Barreiros: “Perante a gravidade de tais afirmações, constou então com foros de verosimilhança, que as autoridades portuguesas haveriam instaurado um processo de averiguações, para apuramento de responsabilidades. Tempo passado, há uma pergunta indiscreta a que não se resiste: alguém sabe da sorte de tal processo ou porque se deixou de falar no assunto?“. E eu puxando pela memória (e não custa muito, até porque tenho tudo anotado…), lembro que, a pedido do inspector Vitor Alexandre da PJ, organizei a ida do general às instalações da DCCB na Av. José Malhoa, onde ele terá sido interrogado (ou melhor, “conversado” com três elementos da PJ) durante toda uma manhã. E que no dia seguinte, após uma viagem ao Porto e durante um almoço no Hotel do Buçaco, Kalugin “abriu-se” ligeiramente quanto ao conteúdo da conversa que tinha mantido com os nossos investigadores. À sobremesa, percebendo que eu estava “mortinho” por saber alguma coisa do que ele tinha contado na PJ, perguntou-me de rompante: “Como é que se chama aquele  almirante que tem o nome da flor da vossa revolução? Só podia ser – obviamente – Rosa Coutinho e Kalugin por muito “nabo” que fosse nestas coisas da flora e das botânicas, era tudo menos parvo… “Rosa Coutinho?“, alvitrei. “Isso, isso! Rosa, Rosa Coutinho… Esse trabalhou para nós, foi nosso agente“. Assim, sem mais nem menos…
Como é que ficou o processo de averiguações iniciado pela PJ, não sei. Sei isso sim que meses mais tarde, no “Tal&Qual” pedi a alguém que confrontasse o almirante com a acusação do general Kalugin. E lembro-me que a resposta do hoje já desaparecido “almirante vermelho” ainda tornou mais credível para mim a conversa mantida com o general à volta da mesa no Buçaco.

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