José Paulo Fafe

A propósito de "mestres" e "imortais"

FF

SÓ MESMO o Zé Ferreira Fernandes para, com este seu notável texto, me fazer quebrar a intenção de nada aqui dizer sobre a morte de Manoel de Oliveira – quanto mais não seja porque, por muito que possa cair mal junto de alguns, era alguém que – culpa e ignorância minha, é claro! – me dizia muito pouco a todos os níveis, pese obviamente o valor que a sua obra cinematográfica possa eventualmente ter tido. Mas o Ferreira Fernandes tem esse condão, com aquela sua prosa límpida, inteligente, soberba, de “mestre”, de fazer-nos quebrar promessas. Talvez seja essa uma das razões porque eu, há muito, o chamo de “Mestre”. E é também essa a razão porque conto fazê-lo, no mínimo, nos próximos 49 anos. Até porque o Zé, ele sim, arrisca-se a ser “imortal”. Pelo menos para mim!

O neto possui aquela arte do frasear curto: ‘O Manoel teve uma grande vida’, disse ontem. E não, não era a quantidade dos 106 anos a justificar a inveja que ontem inundou Portugal. Sendo a inveja o pecado menos confessado, talvez muitos não tivessem dado por isso. Eu dei. Ainda há meia dúzia de anos, saltou ele de um táxi de forma tão lesta que o invejei. ‘Até nisso…’, roí-me. A questão é que ele chegou a velho e nunca foi velhinho, e foi mais do que centenário para parar de trabalhar aos 105. Tanta duração com cada segmento dela – da juventude a centenário – propiciando aos outros o azedume: ‘Sortudo…’ Por ter tido um pai rico, o primeiro fabricante de uma lâmpada portuguesa. Por ter uma cidade com pontes de ferro e o Douro, e a sageza de lhe ver a luz e a amar. Por ser um diletante corredor de automóveis e, porque o irmão era melhor (Casimiro de Oliveira, piloto da Ferrari), ter optado por outros pódios. Por a cidade que lhe calhou ser a de Júlio Resende e de Agustina e ele ter sabido o que o granito molhado faz com isso. Por aos 30 ser belo como uma personagem fútil de Fitzgerald e guardar o olhar limpo para contar os miúdos da Ribeira. Por saborear a lentidão porque não se pode aviar uma nesga do Alto Douro. Por rodear-se de Deneuve e Piccoli e sentir-se neles a honra. Por colher honras que plantou com faina. Por não ser exemplo para ninguém, porque os deuses não são generosos. De vez em quando escapa-lhes uma vida assim, é o que é.

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