José Paulo Fafe

A “diplomacia do croquete” ou um hilariante ofício…


AO LER alguns dos post’s que o embaixador Francisco Seixas da Costa publica no seu imprescindível blogue e em que relata deliciosos episódios da vida diplomática, é certo e sabido que rara é a vez que não me vem à memória um hilariante ofício escrito por um diplomata português que em finais da década de 60 desempenhou as (difíceis, diga-se de passagem…) funções de encarregado de negócios em Havana – quando de um lado Salazar ainda governava o nosso País e, do outro, Fidel Castro e o seu regime estavam no seu apogeu. Um ofício dirigido às Necessidades e em que o nosso diplomata (cujo nome naturalmente omito) relatava entusiasmado a recepção que, a propósito, do então “Dia da Raça” oferecera na residência de Cubanacan. E embora, ao fim de quase quarenta anos, tenha perdido a cópia do ofício, arrisco a reproduzi-lo de memória, ainda que com alguns – óbvios – lapsos que contudo, quando muito, podem ajudar a pecar por defeito – nunca por exagero…

Senhor Ministro dos Negócios Estrangeiros,
Excelência,

No passado dia 10 de Junho ofereci nos belos e frondosos jardins da também não menos bela residência desta Embaixada uma recepção a propósito do Dia Nacional. Presentes, para além da esmagadora maioria dos representantes do Corpo Diplomático acreditado nesta capital, altos representantes do governo cubano, nomeadamente o sub-director do departamento da Europa do Ministerio das Relações Exteriores e o sub-chefe de Protocolo.
O evento decorreu de forma festiva e foi por todos os presentes considerado um êxito. Para que Vossa Excelência tenha noção da receptividade e sucesso da recepção, passo a enumerar alguns dos acepipes servidos: 350 pastéis de bacalhau; 300 croquetes de carne; 300 mini-rissóis de camarão; 150 vol-au-vent de carne; 3 quilos de azeitonas verdes: 2 quilos de azeitonas pretas; e ainda um magnífico bolo para cuja confecção foram necessários: 10 quilos de farinha, 4 dúzias de ovos, 2 quilos de açúcar, 1,5 quilo de morangos,  300 gramas de fermento (…)

Garanto a pés-juntos que poderão passar cinquenta ou sessenta anos que nunca me irei esquecer do teor deste ofício, principalmente do entusiasmo que o nosso encarregado de negócios colocava na presença de um discretíssimo responsável da diplomacia cubana (no mínimo de quinta ou sexta linha…), na “esmagadora maioria do Corpo Diplomático” (quando, pelo menos metade dos países que então mantinham representação em Havana pura e simplesmente não possuiam relações diplomáticas com Portugal…) e especialmente na exaustiva e minuciosa descrição dos acepipes servidos aos seus convidados. Mais:  desde que pela primeira vez tive contacto com este ofício (que, repito, não me perdoo, ter perdido a cópia!) associo-o logo à chamada “diplomacia do croquete”…

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